domingo, 12 de abril de 2009

Jornal do Commercio - O luxuoso retorno do vinil



Jornal do Commercio - PE
12/04/2009 - 08:34

O luxuoso retorno do vinil

Em plena explosão digital, a busca por vinis ainda conserva seu espaço no mercado. Um pequeno nicho que ensaia o retorno deste formato
Luís Fernado Moura

Nunca houve tantas cópias. Tudo mais ou menos começou quando, no início do século passado, obra de arte deixou de significar singularidade e passou a ter sentido de mercado. As telas e esculturas, únicas e sagradas, começavam a dividir os catálogos de arte com os discos de música, as fotografias e o cinema. Na época, o pensador alemão Walter Benjamin enxergava a mudança como uma transformação na forma da sociedade ocidental consumir cultura. Benjamin dizia que a obra de arte havia perdido sua “aura”.

Naqueles tempos, nem disco de vinil existia. Os bolachões utilizados eram os antigos discos de goma-laca, feitos de um material pouco resistente e que armazenava aproximadamente cinco minutos de áudio de cada lado do disco. Vinil mesmo, só foi existir na metade do século. Tantos anos depois, assistimos à decadência do mercado de CDs, os substitutos do vinil impostos pela indústria, e do boom da difusão de música via internet, onde tudo se copia e se transforma. Se vivesse nos dias atuais, talvez Benjamin não entendesse como, em plena explosão digital, a busca por vinis ainda é capaz de conservar seu espaço no mercado. Um pequeno nicho que ensaia seu retorno.

De acordo com relatório do SoundScan, sistema que levanta dados anuais sobre as vendas de música nos EUA, o comércio de vinis no país cresceu 89% somente em 2008, enquanto o levantamento geral revela uma queda de 14% nas vendas totais do mercado de música, que inclui CDs, DVDs e álbuns digitais. No Brasil, o último relatório da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), de 2007, aponta mais uma diminuição no valor das vendas de música, com variação de 31,2% em relação ao ano anterior. As estatísticas sobre as vendas de LPs não existem há mais de 10 anos.

Segundo Fábio Herz, diretor comercial da Livraria Cultura, em São Paulo, a empresa resolveu incorporar discos de vinil ao acervo após observar as tendências dos mercados europeu e norte-americano. “Voltamos a trabalhar timidamente com vinis há pouco menos de três anos. No começo, dava pra contar os títulos na mão”, revela. Fábio conta que os primeiros discos eram remanescentes de tiragens antigas, mas que a procura por LPs foi aumentando e a livraria passou a adquirir títulos novos. “Percebemos que o que era restrito a DJs e audiófilos estava mudando. Hoje o jovem ouve MP3, mas compra vinil também”, afirma. Segundo Fábio, a procura por vinis tem aumentado, e hoje representa 1% nas vendas de música. “É pouco, mas é um público especial”, diz.

De acordo com o presidente da ABPD, Paulo Rosa, o lançamento crescente de LPs não gera perspectiva de que o mercado volte a ser expressivo. “A meu ver, é muito mais uma peça de marketing no lançamento de novos trabalhos do que um ressurgimento do formato”, acredita. Paulo não descarta a possibilidade de o mercado crescer nos próximos anos, mas acha difícil que ele se consolide. “Devido à falta atual de equipamentos de reprodução de áudio em vinil, é improvável que este formato físico venha a representar fatia importante das vendas de música”, aponta.

Conseguir equipamento para tocar discos de vinil é mesmo complicado. Em algumas lojas, existem aparelhos novos, mas os preços são salgados. O vendedor Ezequiel Salles, em uma loja na Rua da Concórdia, mostra seus dois modelos disponíveis para venda. “Muita gente procura, mas a gente trabalha com toca-discos mais caros, para DJs”, afirma. Para quem já tem equipamento para tocar os vinis, mas quer dar uma restaurada, é mais fácil encontrar agulhas para reposição, usadas na leitura dos discos. Os preços variam de acordo com o modelo, indo de R$ 10 a R$ 50.

Quem não tem como escutar seus discos de vinil pode procurar aparelhos em brechós e torcer para encontrar um produto de qualidade e em bom estado. O vendedor Tito guarda uma infinidade deles. A loja Aderaldo Som, na Rua da Conceição, tem as paredes cobertas por vitrolas, radiolas e toca-discos de todo tipo e de várias épocas, com preços que giram em torno de R$ 200. Tito revela logo que boa parte dos aparelhos está quebrada, mas apresenta uma bela radiola dos anos 70, que custa R$ 650, produto especial da casa. “O CD não foi muito aceito não, a gente vê que o som é diferente”, comenta. O vendedor conta que a busca por toca-discos tem aumentado e fica surpreso com a procura do público jovem. “Muita gente nunca viu essas coisas. Esses estudantes, quando veem, acham que é novidade”, afirma sorrindo. E então vai até os fundos da loja buscar uma raridade. O produto, todo acabado em madeira, é um gramofone, aparelho precursor do toca-discos que funciona à base de manivela. Sem conseguir ligá-lo de imediato, Tito luta para descobrir o segredo da peça que, conta, foi fabricada durante a Primeira Guerra Mundial, e enfim a faz funcionar. O preço, revela baixinho, é a pechincha de R$ 1 mil.

É também no Centro da cidade que se encontram boa parte dos sebos de discos de vinil. Na Av. Dantas Barreto, a vendedora Expedita conta que há 14 anos vende LPs no local. Os preços não são altos e variam de R$ 0,50 a R$ 5, dependendo da procura ou da raridade do título e do estado de conservação do álbum. É possível ainda encontrar vinis próximos ao Mercado de Casa Amarela e no Mercado de Boa Viagem. Neste último, o comerciante Raimundo Ferreira conta com um acervo de mais de 35 mil discos, a preços variados. Para discos usados, a oferta é de todo tipo.

O bancário Paulo Wanderley, de 29 anos, afirma que já chegou até a viajar para comprar discos de vinil. Desde os 10 anos, Paulo coleciona álbuns de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Gonzaguinha, nomes por quem guarda paixão especial. “Muita coisa só se consegue em vinil”, aponta. Hoje, ele possui 400 títulos, 70 só de Gonzagão. A busca por essas raridades rende um toque ainda mais old school à sua coleção: alguns discos, de tão antigos, são de 78 rotações – aqueles de goma-laca, que têm lugar de destaque no meio dos álbuns que possui. “Eu acho as capas dos discos antigos verdadeiras obras de arte. O CD perdeu o tamanho. E em termos de qualidade de som, eu gosto da pureza do vinil”, afirma. Para Paulo, não faltam comparações com o compact disc.

Mas Paulo também leva a afeição pelos vinis para a internet. Ele é dono do portal Luiz Lua Gonzaga (www.luizluagonzaga.com.br), onde disponibiliza toda a sua coleção de discos de Luiz Gonzaga para audição gratuita. Aliás, é ele mesmo quem transforma o áudio analógico em arquivos digitais. “Não é nem para mim, faço para que as pessoas conheçam”, explica. Se tirasse pelo caso de Paulo, talvez o velho teórico Benjamin nem achasse este revival tão estranho assim.

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