quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Alceu Valença - Espelho cristalino (24/11/2010)

Alceu Valença nasceu em 1946, em São Bento do Una, Pernambuco. Desde criança, mostrava interesse pela música, e chegou a cantar em um concurso de calouros. Seu pai, ligado à política, foi deputado e prefeito. Em sua infância e adolescência, não sofreu com falta de dinheiro e outras carências, porque sua família tinha boas condições. Mas, desde cedo, demonstrava extrema rebeldia. Foi, inclusive, expulso de vários colégios. Aos 15 anos, ganhou seu primeiro violão, e, a partir daí, toda a rebeldia passou a ser canalizada para a música. O jovem músico revoltado formou-se em Direito, em 1970, e fez ainda um curso em Harvard. Foi mesmo nos Estados Unidos que ele, amante de rock e de outras modas americanas, descobriu que seu negócio era o Brasil. Voltou para o país em 1970. Tentou emplacar composições nos festivais de música que aconteciam no Rio e em São Paulo, sem sucesso. Em 1974, voltou para Recife, e começou a fazer pequenas turnês pela região. Nesse mesmo ano, gravou seu primeiro disco individual, “Molhado de Suor”, pela gravadora Som Livre, que foi muito bem recebido pela crítica. Depois disso, tocando com Jackson do Pandeiro, excursionou o país todo pelo Projeto Pixinguinha. Nesse período, gravou alguns discos, inclusive esse que posto hoje aqui, que fizeram sucesso relativo. O grande sucesso veio em 1980, com o lançamento do disco “Coração Bobo”. O restante de sua trajetória todos conhecem.
Esse disco foi lançado em 1977, antes, pois, do sucesso nacional de Alceu Valença. Não chegou a ser um recordista de vendas. Nele, é possível ouvir com clareza as influências musicais díspares de Alceu: o rock, porque o disco tem sonoridade de rock, com guitarra, baixo e bateria, e a música tradicional nordestina, como baião, coco, frevo, com instrumentos como zabumba, maraca, agogôs, pífanos, viola, sanfona. A rebeldia da juventude de Alceu está também nas letras, como em Agalopado (Lado 1, Faixa 1):
Quando eu canto o seu coração se abala
Pois eu sou porta-voz da incoerência
Desprezando seu gesto de clemência
Sei que meu pensamento lhe atrapalha
Cego o sol seu cavalo de batalha
E faço a lua brilhar no meio-dia
Tempestade eu transformo em calmaria
E dou um beijo no fio da navalha
Pra dançar e cair nas suas malhas
Gargalhando e sorrindo de agonia
Se acaso eu chorar não se espante
O meu riso e o meu choro não têm planos
Eu canto a dor, o amor, o desengano
E a tristeza infinita dos amantes
Don Quixote liberto de Cervantes
Descobri que os moinhos são reais
Entre feras, corujas e chacais
Viro pedra no meio do caminho
Viro rosa, vereda de espinhos
Incendeio esses tempos glaciais

Essa letra também evidencia a incrível erudição de Alceu, que sempre faz citações de obras e autores, dos mais variados tempos, estilos e lugares. Para finalizar, não posso deixar de mencionar que a música Espelho Cristalino foi inspirada em Augusto Ruschi, um dos maiores naturalistas brasileiros, que, na década de 70, quando todo mundo falava em industrialização e desenvolvimento, já alertava para os perigos do desmatamento, da escassez de água, e de outros problemas ecológicos cujas conseqüências sentimos várias décadas depois. Então, esse disco é Alceu Valença inteiro: nordestino, roqueiro, advogado, erudito e rebelde. Muito boa essa mistura!


Lado 1

1-     Agalopado (Alceu Valença)
2-     Maria dos Santos (Alceu Valença)
3-     Anjo de fogo (Alceu Valença)
4-    Veneno (Alceu Valença-Rodolfo Aureliano da Silva)

Lado 2

1-      Espelho cristalino (Refrão de folclore alagoano-Alceu Valença)
2-     Eu sou você (Alceu Valença)
3-     A dança das borboletas (Alceu Valença-Zé Ramalho)
4-     Sete léguas (Alceu Valença)

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