terça-feira, 16 de novembro de 2010

Hermeto Pascoal - Cérebro Magnético (16.11.2010)

A postagem de hoje é um disco do mago do som, do homem que consegue ouvir música em tudo. Hermeto Pascoal nasceu em 22 de junho de 1936, em Olho d´Água, e foi criado em Lagoa da Canoa, na época município de Arapiraca, estado de Alagoas.  Com 8 anos, pegou a sanfona de 8 baixos do pai para brincar, e nunca mais parou. Na década de 1950, mudou-se para Recife, e, já dominando a sanfona, tocou em rádios e programas de calouros por lá. Em 1958, foi  para o Rio de Janeiro, e passou a integrar o Regional de Pernambuco do Pandeiro (na Rádio Mauá) tocando sanfona. Depois, começou a tocar piano no conjunto e na boate do violinista Fafá Lemos e no conjunto do Maestro Copinha (flautista e saxofonista). Em 1961, para conseguir melhores oportunidades de trabalho, transferiu-se para São Paulo. Lá formou, com Papudinho no trompete, Edilson na bateria e Azeitona no baixo, o grupo Som Quatro. Foi nessa época que começou a tocar flauta. Com esse grupo gravou um LP. Em seguida, integrou o SAMBRASA TRIO, com Cleiber no baixo e Airto Moreira na bateria. No disco do Sambrasa Trio, Hermeto já registrou sua música "Coalhada". Em 1966, Hermeto no piano e flauta, Heraldo do Monte na viola e guitarra, Théo de Barros no baixo e violão e Airto Moreira na bateria e percussão formaram o Quarteto Novo, cujas inovações musicais, somadas à altíssima qualidade, rica criatividade e ousadia, fizeram o grupo ganhar diversos festivais de música. Foi com esse grupo que Hermeto registrou algumas de suas composições mais conhecidas, como O Ovo e Canto Geral.  Desde então, Hermeto teve atuação brilhante no cenário musical nacional e internacional, formando vários grupos, e gravando muito.
Mas a marca de Hermeto não está na sua carreira vitoriosa, mas sim no som que ele cria. É preciso ouvir Hermeto para que se tenha idéia do que seja sua música. Não dá para explicar. Seu estilo é único, não pertence a nenhum gênero musical específico, embora muitos possam ser reconhecidos em suas composições (como choro, forró, jazz, erudito). Hermeto também é adepto das experimentações sonoras, com uso de objetos que fazem os mais diversos tipos de som. O melhor de Hermeto é que ele, com a simplicidade de quem saiu do interior não teve acesso ao estudo escolarizado nem de música e nem de nada, dá baile em muito acadêmico por aí. Estão cheios de teorias para tentar entender e explicar como um homem pode dominar tanto a música e a ordem dos sons. Para ele, é tudo simples. Aqui tem uma dissertação de mestrado, de Luiz Costa L. Neto, que ficou anos acompanhando o Hermeto, que mostra como a simplicidade de Hermeto é complexa para nós, os reles mortais. No final da dissertação, tem a seguinte fala de Hermeto (veja como é simples):
Foi por volta dos 45 anos de idade, que eu descobri que a teoria, não a música, tem doze notas. (...) Mas como é que eu descobri isso? Eu tenho uma bandola que é um instrumento com seis cordas duplas, não é uma corda grave e outra aguda, tipo a viola que tem uma corda grossa e outra fina. (...) Eu afinei aquelas doze cordas cada uma numa nota, e aí cadê mais nota? Deu a oitava de novo. Eu fiquei preso. Aí eu me decepcionei e por um momento me deu um branco na cabeça. Meu Deus, quer dizer que tudo que eu faço é com essas doze notas? Eu me esqueci de pensar que nas cores você tem o azul claro, o azul escuro, você tem a areia branca, a areia vermelha e nessa hora não me veio que na música eu tenho as oitavas, tenho as quartas, as quintas, para me tranquilizar. Mas de qualquer forma são doze notas, a não ser botando as comas e aí é que eu te falo, as doze é porquê é convencional, se não não seria doze só. (...) Mas ficou chato naquela noite porque eu queria fazer uma composição e na minha cabeça tinha notas que não tinha na [notação] convencional. (...) Foi uma peste eu saber disso e eu não quis mais. O que eu faço não depende dessas doze notas só. Depende da minha imaginação. (...) Tem coisas que não dá para botar num instrumento convencional. Porque que tem a percussão, os sons dos bichos? É por isso. Na música erudita eles separam as coisas, como se fosse um preconceito, mas na minha música não, eles tem lugar, o percussionista também é um solista.

Esse disco, Cérebro Magnético, foi gravado em 1980. Além de Hermeto, tocam:  Jovino José Dos Santos Neto, Itiberé Luiz Zwarg e Alfredo Dias Gomes. Como todos os discos de Hermeto, tem de tudo: tem sons doces, singelos, ásperos, duros, inesperados, bonitos, estranhos. Enfim, uma viagem no universo infinito do som.

Lado 1

1-      Voz e vento (Hermeto Pascoal)
2-     Música das nuvens e do chão (Hermeto Pascoal)
3-     Dança da selva na cidade grande (Hermeto Pascoal)
4-     Amor, paz e esperança (Hermeto Pascoal)
5-     Diálogo (Hermeto Pascoal)

Lado 2

1-      Correu tanto que sumiu (Hermeto Pascoal)
2-     Festa na lua (Hermeto Pascoal)
3-     Eita mundo bom! (Hermeto Pascoal)
4-     Religiosidade (Hermeto Pascoal)
5-     Arrasta pé alagoano (Hermeto Pascoal)
6-     Vou esperar (Hermeto Pascoal)
7-     -   Auriana  (Hermeto Pascoal)
8-     Banda encarnação (Hermeto Pascoal)

Um comentário:

Mr Robot disse...

Muito bom, obrigado por disponibilizar o download.