quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Pena Branca e Xavantinho - Velha Morada (29.09.2011)

A velha morada dos irmãos Pena Branca e Xavatinho é, sem dúvida, a cidade de Uberlândia, onde nasceram, em 1939 e 1942, respectivamente. Viveram uma época de transição, de uma realidade eminentemente rural para outra urbana e cosmopolita. Eles vêm de uma família grande, de sete filhos, negra e do trabalho na roça. Na infância, participavam das Folias de Reis que aconteciam em Uberlândia, e lá tiveram contato com a música. Inclusive o nome Pena Branca remete ao grupo mais antigo da Folia de Reis de Patrocínio, bairro onde viviam. Se desde cedo já cantavam e tocavam, desde então pegavam no pesado, faziam trabalhos braçais em roças, serralherias e matadouros. O começo da carreira artística, em 1958, foi na Rádio Educadora de Uberlândia, e coincidiu com as políticas que pretendiam desenvolver o centro do país; nesse contexto, a construção de Brasília e outros projetos modificaram a cena rural de Uberlândia, que foi adquirindo características urbanas. Então, nessa época de franco desenvolvimento, eles cantavam nas folias, nas rádios, e foram conseguindo fama local. Decidiram que Uberlândia não dava mais, e Xavantinho partiu para São Paulo em 1968. Depois, foi o Pena Branca. O começo na terra da garoa não foi fácil. Tiveram que trabalhar em  postos de gasolina, na construção civil, passaram por humilhações, falta de dinheiro e fome. Ao mesmo tempo, contudo, eles participavam de concursos musicais, e ganharam prêmios, aplausos, e reconhecimento de artistas importantes, como Rolando Boldrin, Milton Nascimento, Tonico e Tinoco, Inezita Barroso, Renato Teixeira e outros. Esses contatos abriram as portas da grande mídia para a dupla, dentre elas as gravadoras multinacionais e as redes de televisão, inclusive a Rede Globo. Mas, como tudo tem seu preço, o do sucesso não é pequeno. A dupla alterou o figurino e repertório (que passou a incluir músicas de compositores da MPB, como Guilherme Arantes, Chico Buarque e outros), para se enquadrar no modelo dos neocaipiras que vinham fazendo sucesso. Mas, ainda assim, conseguiram manter intactos alguns dos elementos mais importantes da tradição da música caipira. As mudanças que fizeram - linguagem, vestimentas e a inserção de alguns instrumentos – permitiram que Pena Branca e Xavantinho firmassem parcerias com respeitáveis nomes da MPB, além da ampla divulgação da dupla. O terceiro LP, gravado em 1987, teve a participação de Milton Nascimento e Tavinho Moura, e a direção de Rolando Boldrin, e foi um estouro de vendas. Ao longo de toda a carreira, mesmo completamente inseridos no mercado cultural, Pena Branca e Xavatinho mantiveram a qualidade do trabalho. Mesmo cantando e tocando compositores contemporâneos, mantiveram um pé na tradição, na música que aprenderam a cantar com sua mãe. Hoje, quando muitas atenções se voltam para as músicas tradicionais, cresce a admiração pela dupla. Em 1999, a morte de Xavantinho deixou o irmão meio perdido no mundo, e ele voltou para Uberlândia, cheio de problemas, inclusive dívidas. Ele iniciou uma carreira solo, ajudado por amigos como Tarcisio Manú Veio e sua Orquestra de Violeiros do Cerrado, Renato Teixeira, Inezita Barroso e tantos outros. Esse disco de hoje tem a característica marcante da dupla: a articulação coerente entre tradição e modernidade. Além do talento incrível dos irmãos, que cantam muito, o disco tem ótimos arranjos e bela instrumentação.


Lado A

1- Velha morada – Toada (Xavantinho e Mestre Rezende)
2-Frango assado – Batuque (Xavantinho e Herotides de Souza)
3-A mãe do ricaço – Toada baião (Xavantinho)
4-Saudades – Valsa (Xavantinho)
5-Cálix Bento – congada (Tavinho Moura)
6-Valente caminhoneiro – Toada Nordestina (Xavantinho)

Lado B

1-Brasil rural – Toada (Xavantinho)
2-Pra que chorar – Cana verde (Xavantinho)
3-Que terreiro é esse – Batuque (Xavantinho)
4-O cio da terra – Toada (Milton Nascimento/Chico Buarque)
5- Terno da estrela guia – Congada (Raul Ellwanger/Luiz Coronel)
6-Visite o sertão – Moda de viola (Xavantinho)

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