terça-feira, 12 de abril de 2011

Zé Gonzaga e Conjunto - Um pedacinho do Nordeste (12/04/2011)

Para a postagem de hoje, sobre Zé Gonzaga, encontrei um texto na Internet, escrito por Abílio Neto, em 2004, falando sobre Zé Gonzaga, de uma forma que dificilmente eu conseguiria fazer melhor. Então, transcrevo para vocês abaixo:


José Januário dos Santos, conhecido artisticamente como Zé Gonzaga, nasceu em Exu/PE em 15/01/1921 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ em 12/04/2002, aos 81 anos de idade. Era o mais novo dos quatro homens, dos filhos de Januário, pai de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
Tal qual o pai Januário, o irmão Severino e o irmão Luiz, Zé tinha um enorme talento musical e sem dúvida foi um dos maiores músicos de sanfona deste País, de todos os tempos. Também foi ótimo compositor. Luiz que era um gênio da sanfona considerava-o também o melhor músico da família que, ao todo, tinha sete artistas entre pai, irmãos e irmãs.
Fugindo da seca do sertão pernambucano, Zé Gonzaga, em 1939 saiu em direção ao sul do País em busca de ajuda dos seus irmãos Joca e Severino que moravam em São Paulo, ou Luiz, no Rio de Janeiro, que não via desde 1930. Não achou os irmãos de São Paulo, escreveu para a mãe, D. Santana, pedindo o endereço de Luiz no Rio de Janeiro. E foi assim que numa manhã de março de 1940, numa pensão situada na Rua São Frederico, 14, no Morro de São Carlos no Rio de Janeiro, Luiz Gonzaga foi acordado antes da hora por D. Tereza, uma portuguesa, dona da pensão que lhe disse: - Gonzaga, acorda que cá está um gajo a dizer que é teu irmão. Gonzaga que ainda vivia no mangue tocando em praça pública para sobreviver, respondeu: - Oxente D. Tereza, que diabo é isso? Aí, tropeçando de sono foi até a porta, reclamando, e deu de cara com um rapaz moreno de olhos azuis iguais ao da sua mãe. Disse José, com quem Luiz sempre teve uma relação de amor e ódio, que ao aparecer aquele negão, de cara redonda, perguntou: - Você é que é Luiz Gonzaga? Eu sou José seu irmão, ao que Luiz respondeu: - E você veio fazer o quê aqui, seu moleque safado que eu não mandei chamar ninguém porque eu estou pior que vocês? – Eu vim praqui porque tá uma seca danada lá no Sertão e mãe mandou dizer pra tu dar um jeito de ajudar a gente. De imediato, a ajuda de Luiz foi comprar um colchão para o irmão e pagar pra ele as despesas de hospedagem da pensão. Zé então com 19 anos passou a ajudar o irmão carregando-lhe a sanfona até o Mangue e a passar o pires no recolhimento das gorjetas. Depois com o passar do tempo e tendo Luiz Gonzaga ficado famoso, deu-lhe uma sanfona, o incentivo e abriu os espaços para o novo artista. José, que era exímio sanfoneiro, fez carreira à sombra do irmão, tendo adotado, a pedido deste, o nome artístico Zé Gonzaga. Depois do empurrão do irmão à sua carreira, venceu pelo seu próprio talento. Casou-se, e durante algum tempo Luiz morou com o irmão e a sua esposa Clara. No final da década de 1940, Zé Gonzaga já tocava na Rádio Guanabara e em 1949 gravou o seu primeiro disco de 78 rotações pela Star, o qual continha os choros, Teimoso, de Zé Gonzaga e Vira o Outro Lado, de Cipó. Em 1950 mudou de gravadora e na Odeon gravou o calango Ai Sanfona, de sua autoria e Jeová Rodrigues e a rancheira Bate Sola, da mesma dupla. Em 1951 gravou a batucada Bebida Não Mata Ninguém, de Kid Pepe e Arlindo Caldas e também o xote O Forró de Quelemente, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Em 1951 fez a música Viva o Rei, em parceria com Zé Amâncio, uma homenagem a seu irmão Luiz que tinha sofrido grave acidente de carro que foi gravada pelos dois, fazendo mais sucesso na voz de Luiz. Em 1956 fez enorme sucesso com O Cheiro da Carolina, de sua autoria e Amorim Roxo. Em 1957 formou um conjunto próprio com o qual passou a se apresentar e a gravar por um determinado período. Chegou a gravar um disco somente composto de tangos, gênero musical que executava muito bem na sanfona pela gravadora Phonodisc. Tal qual um cowboy americano, Zé Gonzaga se apresentava todo de preto, porém com chapéu à moda de cangaceiro de Lampião. Usava também lenço no pescoço, cartucheira e revólver.
Zé Gonzaga deixou um legado de inúmeros discos de 78 rotações e 12 LPs gravados entre as décadas de 1940 e 1960. Seus maiores sucessos foram: Chorei Sim(1962), O Sertanejo(1963), Vendedor de Camarão(1962, música que contém uma deliciosa prosa), As Coisas Boas Que Eu Tenho(1962), Roseira do Norte(sua e de Pedro Sertanejo, gravada por Oswaldinho e Sivuca), Pisa na Fulô(1957), Barba de Bode(1958), Sanfoninha de Oito Baixos(1958), Baile da Tartaruga(1963), Estrada da Vida(S/D), O Cheiro da Carolina(1956), Viva o Rei(1951), Bebida Não Mata Ninguém(1951), Madalena(1953), Pensando Nela(1963), Não Corto Nem Penteio(1963), Recordando Januário(1963), Sanfoneiro Gordo(1964), Estrada Velha da Pavuna(1964) e Vida de Cigano (1964).
Pelas andanças no Recife teve contato com o frevo e gravou de forma magistral o frevo mais conhecido do carnaval de Pernambuco, Vassourinhas. Também compôs belos frevos como Adeus Pernambuco(1962) e Frevinho na Roça(1959). Gravou também a famosa marchinha carnavalesca dos Irmãos Valença, de Pernambuco, chamada Você Não Gosta de Mim(1962).
Em agosto de 1952 Zé Gonzaga participou da famosa excursão de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, à Paris para se apresentar no castelo de Coberville, fato que lhe rendeu outra briga homérica com o irmão porque Zé foi em seu lugar, pois Luiz havia brigado com Chateaubriand. Na França fez tanto sucesso que por lá permaneceu até o final de 1952, tendo feito show até no elegante cassino de Deauville.
O acervo de 78 rotações de Zé Gonzaga foi gravado pela Star, Odeon, Continental, Guanabara e Copacabana. Os LPs foram gravados pela Copacabana, Japoti, Beverly e Phonodisc.
Zé Gonzaga morreu ressentido pelo fato de ter sido esquecido, de não ter sido, há vários anos, procurado por gravadora e nem por promotores de eventos culturais. Também levou o coração magoado pelo não reconhecimento da crítica ao seu trabalho como músico e compositor. A grande mídia de hoje não sabe quem foi Zé Gonzaga.Até do irmão famoso disse ao jornalista Assis Ângelo: “Luiz não era tudo isso que se diz dele, não”.
Zé casou-se, mas passou pouco tempo casado. Como o irmão Luiz, era também muito alegre e conquistador. Teve inúmeros casos amorosos, mas demonstrava não ser feliz. Na verdade, era uma pessoa muito só. Não deixou filhos.Tinha adotado há vários anos a religião espírita. Sem dúvida, a sua sanfona, e a sua alegria faz enorme falta. Talvez a música que diga muito dos seus sentimentos seja Estrada da Vida, de sua autoria:

Andei,
Pela Estrada da Vida
Na esperança de um dia
Encontrar um amor

Fiquei,
No meio da encruzilhada
A estrada fechada
E o meu sonho se acabou

Hoje,
Sei que estou condenado,
A viver desprezado,
Sem ninguém me querer
Ah Deus,
O que é que eu posso fazer? 

Zé Gonzaga foi sepultado no cemitério de Duque de Caxias/RJ, na baixada fluminense, onde residia. Entre os amantes do forró que conheceu o seu trabalho, deixou muita saudade. Este admirador o considera o maior sanfoneiro do Brasil”.



            Lado A

           01-Adeus São João
          (Zé Gonzaga-Menezes Veiga)

           02-Chorei sim
              (Zé Gonzaga)

           03-Sogra Bronqueada
              (S. Ramos-José Batista)

           04-O sertanejo
                 (Aguiar Filho-João Silva)

           05-Vendedor de camarão
                 (Zé Gonzaga-Menezes Veiga)

           Lado B

            01-As coisas boas que eu tenho
            (Altamiro Carrilho-Irany de Oliveira)

           02-Bulandeira
             (Zé Gonzaga)

           03-Ai, amor
                  (S. Ramos-José Batista)

           04- Não troco minha mulher
                      (Ary Monteir-Amado Regis)

     05-Dançando com André
                   (Augusto Mesquita)

Um comentário:

Adeilton Lima disse...

Bravo, Cacai!!! Sempre pérolas e raridades por aqui! Esse acervo é pra alimentar a memória da nossa cultura! E para que os jovens não percam os bons referenciais! Vida longa ao Acervo Origens!!!!
Abraço!
Adeilton LIma