terça-feira, 7 de junho de 2011

Alvarenga e Ranchinho (07/06/2011)

Murilo Alvarenga nasceu em Itaúna, Minas Gerais, em 1912. Quanto ao Ranchinho, eles foram três. O primeiro foi Diésis dos Anjos Gaia, que cantou com Alvarenga de 1933 a 1938. O segundo foi Delamare de Abreu, irmão de Alvarenga, que ficou com ele apenas dois anos. O terceiro Ranchinho, Homero de Souza Campos,  foi o que ficou mais tempo com Alvarenga. Eles chegaram a gravar 30 LPs e 78 rpms ao longo de 50 anos de carreira. Durante anos foram destaque na música sertaneja brasileira, sendo responsáveis por boa parte do faturamento das gravadoras. Trabalharam durante dez anos no Cassino da Urca, onde aprimoraram o talento para a sátira política, que os caracterizou para sempre. Em toda a carreira, a dupla se separou e voltou diversas vezes. Participaram de mais de 30 filmes e eram presença constante em campanhas eleitorais, por causa das sátiras. Eles receberam a alcunha de “Os milionários do riso”, pela veia sátira sempre presente em suas apresentações. Nos anos 70 se apresentaram principalmente em cidades do interior. O disco da postagem de hoje tem os maiores sucessos da dupla. Destaco “Romance de uma caveira”, sua música mais conhecida, que conta a história de um cadáver (o “defunto fresco”) que, recém-chegado ao cemitério, põe em crise um romance antigo entre duas caveiras. O caso termina em tragédia, porque o caveiro acaba se suicidando. Outra sensacional é o Drama de Angélica, um canto tétrico, com todos os versos terminando e proparoxítonas, cuja letra genial vale a pena ser transcrita aqui.

Drama da Angélica (Alvarenga e M. G. Barreto)


Ouve meu cântico
Quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
Magro esquelético

Poesia épica,
Em forma esdrúxula
Feita sem métrica,
Com rima rápida

Amei Angélica,
Mulher anêmica
De cores pálidas
E gestos tímidos

Era maligna
E tinha ímpetos
De fazer cócegas
No meu esôfago

Em noite frígida,
Fomos ao Lírico
Ouvir o músico
Pianista célebre

Soprava o zéfiro,
Ventinho úmido
Então Angélica
Ficou asmática

Fomos ao médico
De muita clínica
Com muita prática
E preço módico

Depois do inquérito,
Descobre o clínico
O mal atávico,
Mal sifilítico

Mandou-me o célere,
Comprar noz vômica
E ácido cítrico
Para o seu fígado

O farmacêutico,
Mocinho estúpido,
Errou na fórmula,
Fez despropósito

Não tendo escrúpulo,
Deu-me sem rótulo
Ácido fênico
E ácido prússico

Corri mui lépido,
Mais de um quilômetro
Num bonde elétrico
De força múltipla

O dia cálido
Deixou-me tépido
Achei Angélica
Já toda trêmula

A terapêutica
Dose alopática,
Lhe dei em xícara
De ferro ágate

Tomou no fôlego,
Triste e bucólica,
Esta estrambólica
Droga fatídica

Caiu no esôfago
Deixou-a lívida,
Dando-lhe cólica
E morte trágica

O pai de Angélica
Chefe do tráfego,
Homem carnívoro,
Ficou perplexo

Por ser estrábico
Usava óculos:
Um vidro côncavo,
Outro convexo

Morreu Angélica
De um modo lúgubre
Moléstia crônica
Levou-a ao túmulo

Foi feita a autópsia
Todos os médicos
Foram unânimes
No diagnóstico

Fiz-lhe um sarcófago,
Assaz artístico
Todo de mármore,
Da cor do ébano

E sobre o túmulo
Uma estatística,
Coisa metódica
Como Os Lusíadas

E numa lápide,
Paralelepípedo,
Pus esse dístico
Terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica,
moça hiperbólica
beleza helênica,
morreu de cólica!"


Lado A


01-Ê... São Paulo(Alvarenga e Ranchinho)
02-Jogo da dobradinha (Alvarenga e Ranchinho)
03-Horóscopo (Capitão Furtado, Alvarenga e Ranchinho)
04-Drama de Angélica (Alvarenga – M. G. Barreto)
05-Invenções (Alvarenga e Ranchinho)
06-Feliz aniversário (Alvarenga e Ranchinho)

Lado B

01-Desafio de perguntas (Alvarenga e Ranchinho)
02-Romance de uma caveira (Alvarenga e Ranchinho – Chiquinho Sales)
03-Soletrando (Alvarenga e Ranchinho)
04-Maria da Dores (Alvarenga)
05-O lubisome(Alvarenga – Zequinha Torres)
06-Mister Eco (Bill Putnan, Belinda Putnan) Paródia de Alvarenga

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