quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Luperce Miranda de ontem e sempre (17/08/2011)

Para apresentar Luperce Miranda, ninguém melhor do que o grande nome do bandolim contemporâneo: Hamilton de Holanda. Esse texto é o prefácio do livro Luperce Miranda: O Paganini do Bandolim, de Marília Trindade Barboza (Editora da Fonseca, 2004). Então, Luperce Miranda por Hamilton de Holanda:

Luperce. Esse nome diz muito. Nascido e criado em Recife, o menino de muitos irmãos cresceu em um ambiente musical que o formou como profissional. Desde muito novo, seu talento já encantava quem o escutava. Na verdade, escrevo essas linhas para falar da importância de Luperce para a música popular brasileira, mais espeficicamente para a história do Bandolim brasileiro. O Bandolim, como alguns outros instrumentos, chegou ao Brasil pelas mãos dos europeus. E aqui se transformou em um dos mais importantes e originais de nossa tão rica música. Original porque aqui se criou um jeito de tocar único e admirado em todo o mundo. Nossa escola é completa, seja pelo repertório, seja pela técnica, seja pela obra. E é aí que entra o mágico Luperce Miranda. Foi um dos primeiros a colocar o bandolim em uma posição de solista de destaque no regional brasileiro. Deixou uma bela obra, entre discos, interpretações e composições. E o principal: contribuiu de forma definitiva para a formação de uma técnica sólida e virtuosística. Vendo Luperce tocar, até parecia fácil. Seus dedos passeavam pelo braço do instrumento. E ele tinha essa facilidade em qualquer parte da escala de seu nobre instrumento. Digo isso porque quanto mais perto da boca do bandolim, menores as casas, menor o espaço para os dedos e maior a dificuldade. E para ele era moleza. Claro que a custo de muitas horas de cumplicidade. Conhecia muito bem os acordes. Sabia usar o virtuosismo em prol de sua música.  Cito como exemplo a Valsa Concerto “Quando me lembro”. Os dedos percorrem praticamente toda a extensão possível. E que beleza de obra. Linda, difícil, alegre, triste. Considero esta música um desafio para o bandolinista que quer atingir o nível máximo de técnica, se é que isso existe. Mas nem só de técnica vivia Luperce. Vide “Alma e Coração”. Profundidade, senso estético, brasilidade. Talvez seja porque ele era pernambucano, talvez porque tenha vivido muitas emoções com as mulheres. O certo é que composições como “Alma e Coração” contrariam os que dizem que Luperce era só técnica. (...).
Esse disco, gravado em 1970, pelo Museu da Imagem e do Som, marca a volta de Luperce às gravações, depois de um período de mais de uma década sem gravar nada. Ele traz bonitas valsas, e evidencia aquilo que Hamilton já disse, que Luperce não era só técnica, porque sua sensibilidade na interpretação é admirável. Destaco a valsa, de autoria dele, Fala Coração (Faixa 5 do lado A). É linda também a valsa Santinha, de Anacleto de Medeiros, assim como são belas as interpretações de Luperce para choros clássicos, como Pedacinhos do Céu, de Waldir Azevedo, e Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu.


Lado A

1-Já Te digo – Chôro (Pixinguinha)
2-Saudades de Matão – Valsa (Raul Torres-Jorge Galatti)
3-Santinha – Xotis (Anacleto de Medeiros)
4-Tico-tico no fubá – Chôro (Zequinha Abreu)
5- Fala coração – Valsa (Luperce Miranda)
6-Querida de todos – Polca (Antonio S. Calado)
7- Por um beijo – Valsa (Catullo da Paixão Cearense - Anacleto Medeiros)

Lado B

1-Chão de estrelas – Valsa (Orestes Barbosa-Silvio Caldas)
2-Odeon – Chôro (Ernesto Nazareth)
3-Janete – Valsa (Luperce Miranda)
4-Pedacinho do céu – Chôro (Waldir Azevedo)
5-Um beijinho pra você - Marcha(Luperce Miranda)
6-Saudades de Ouro Preto – Valsa (Antenogenes Silva)
7-Flôr amorosa – Choro (Antonio S. Callado

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