sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Filhos de Gandhy (07/10/2011)

Na década de 1940, na cidade de Salvador, os estivadores desfrutavam de boas condições de trabalho e de renda. O próprio sindicato dos estivadores controlava e fiscalizava o trabalho, e isso dava a eles grande conforto. Em Salvador, a tradição festeira, principalmente carnavalesca, é ancestral e unânime, de forma que os estivadores não ficavam de fora. Tinham eles um bloco, de nome Comendo Coentro, que tinha um caminhão cheio de instrumentos musicais, que desfilava seguido por estivadores trajados com roupas de linho importadas e chapéus panamá. Em 1949, uma política de arrocho salarial, juntamente com a intervenção do governo nos sindicatos, mudou brusca e drasticamente a condição desses trabalhadores, a ponto de impossibilitar os festejos carnavalescos do Comendo Coentro. Então, para não parar a festa, tiveram a grande idéia de criar um cordão ou bloco, idealizado por Vavá Madeira, com apoio de dezenas de estivadores. Eles arrecadaram dinheiro, fizeram roupas com lençóis brancos e  tambores com barris de mate e couro. Imbuídos do espírito de resistência, oriundos de uma categoria politizada e antenados com a conjuntura política internacional, mostraram-se sensíveis à luta por liberdade empreendida por Mohandas Karamchand Gandhi, na Índia, e deram ao bloco o nome de Filhos de Gandhi. Elegeram o discurso da paz, que, inclusive, servia de contraponto à imagem que se divulgava sobre os trabalhadores da estiva, que seriam baderneiros, candomblezeiros, violentos militantes. Criado como cordão, o Filhos de Gandhi rapidamente expressou suas afinidades religiosas, porque era formado, de fato, por vários homens ligados ao candomblé. O Filhos de Gandhi assumiu, por identificação religiosa, o afoxé como ritmo. Trocaram o i, do nome Gandhi, por y, para evitar problemas com o uso do mesmo nome do grande líder pacifista indiano, e, assim, foi formado o Afoxé Filhos de Gandhy, que até hoje representa a resistência da cultura e do povo afrodescendente de Salvador. Como, na origem do bloco, ele foi formado por estivadores, que eram somente homens, até hoje somente eles desfilam, e cabe às mulheres a confecção das roupas. Atualmente, o Filhos de Gandhy resiste, ainda com tambores e pés no chão, à mercantilização do carnaval soteropolitano, representado pelo massacre dos megawatts dos odiosos blocos de axé music. Nesse disco, da postagem de hoje, estão músicas tradicionais do bloco. O destaque fica para a mais famosa delas, Ijexá - Filhos de Gandhi.


Lado A

01- Onisaurê – Saudação
02- Gigante de Guiné
03- Água de Cheiro
04- Facho de Luz
05-  Espelho da alma
06- Ijexá (Filhos de Gandhy)
07- Siré de Exú

Lado B

01- Coração de Oxalá
02- Tribos
03- Negros e brancos
04- Chama da paz
05- Fala Bah!
06-  Siré de Oxalá

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