terça-feira, 19 de outubro de 2010

Choro Livre - 1989 (19.10.2010)

Se o Choro nasceu no Rio de Janeiro, ele veio morar em Brasília. O gênero instrumental brasileiro aportou na capital ainda na época da construção da cidade. Com a vinda de funcionários públicos do Rio de Janeiro para a nova capital, vieram também músicos ligados ao Choro. São eles os pioneiros do Choro no planalto central. Alguns deles eram militares e funcionários públicos, e outros vieram pelos mais diversos motivos.  A tirar pelos primeiros chorões do planalto central, o Choro aporta aqui muito bem representado. Embora não tenha havido nenhum esforço oficial (apesar de JK ser apreciador de serestas, e fizesse questão da presença de bons músicos nas festas que promovia) para implantar uma tradição musical, a vinda de funcionários públicos trouxe importantes pedaços do Choro carioca para Brasília. Como ímãs que se atraem, esses músicos, com distintas origens, formações e histórias de vida, começaram a realizar encontros musicais. O Choro em Brasília surge, então, como uma colcha de retalhos; não com um Regional consolidado, como os que já existiam no Rio de Janeiro, mas a partir da reunião dos músicos disponíveis. Só que eram retalhos dos mais finos tecidos, que deram origem a uma colcha bela e resistente. Nos primeiros anos da década de 1970, os chorões se encontravam para tocar em locais como o Brasília Palace, Hotel Aracoara, a própria Rádio Nacional. Os encontros dos nossos pioneiros aconteciam, também, na casa do jornalista Raimundo Brito, na 105 Sul. Eram freqüentados por Waldir Azevedo, Avena de Castro, Pernambuco do Pandeiro, Ely do Cavaco, Celso Cruz, Odette Ernest Dias, Bide da Flauta e Cicinato. Em 1974, com a morte de Raimundo Brito, as reuniões passaram a ser realizadas no apartamento de Odette, na 311 Sul. Nesse mesmo ano, chegaram a Brasília rumores de que um Clube do Choro seria fundado no Rio de Janeiro; o valente grupo iniciou, então, a movimentar-se no sentido de fazer o mesmo no cerrado. Em 1975, de fato, foi inaugurado o Clube do Choro do Rio de Janeiro. Nesse ano, as reuniões de chorões permaneciam na casa de Odette. A partir de então, mesmo sem sede, sem estatuto e sem existência oficial, o grupo de chorões de Brasília já recebia o nome de Clube do Choro. Mas o grupo cresceu, e jovens músicos aderiram ao choro e passaram a fazer parte do Clube. Então, o apartamento de Odette ficou pequeno. Eis que, depois de muita luta, em 1977, Elmo Serejo destinou ao Clube o local de sua sede até os dias de hoje: entre a Torre de TV e o Centro de Convenções Ulysses Guimarães. O espaço físico foi inaugurado juntamente com a edição de seu Estatuto, em 1977. A edificação havia sido construída para servir de vestiário do Centro de Convenções, mas nunca teve essa utilização. As instalações eram precárias, mas, a partir de esforços e doações de seus membros, os encontros dos chorões passaram a ser realizados ali. Pernambuco do Pandeiro chegou a vender uma coleção de passarinhos para comprar geladeira e fogão para o Clube. A fundação do Clube do Choro foi crucial para o crescimento do gênero em Brasília. Apesar de sua história ser cheia de percalços, de altos e baixos (muito baixos, como, por exemplo, o fechamento do Clube por 10 anos nas décadas de 80 e 90), essa instituição conseguiu manter o Choro vivo e a comunidade de chorões agregada.
O grupo Choro Livre é umbilicalmente ligado ao Clube do Choro. Fundado por Reco do Bandolim, presidente do Clube do Choro desde 1993, o Choro Livre já teve diversas formações, sempre incluindo os melhores instrumentistas da cidade. Nesse disco, o Choro Livre é Reco no Bandolim; Alencar no 7 Cordas (Alencar é um grande mestre do violão de 7 cordas, tendo sido responsável pela formação de muitos chorões em Brasília); Fernando César no violão de 6 cordas (nesse disco, ele ainda tocava seis cordas; isso foi antes dele formar, com o irmão Hamilton de Holanda, o grupo Dois de Ouro); José Américo, também no violão de 6 cordas (ele é pai de Fernando César e Hamilton de Holanda); Pinheirinho no pandeiro e um sujeito que virou lenda, o cavaquinista Assis, cujo apelido era The Six porque tinha seis dedos nas mãos. Destaque para a primeira música do Lado B, Suíte Retratos, de Radamés Gnatalli, lindamente interpretada por Reco do Bandolim. Atualmente com outra formação, o Grupo Choro Livre é responsável por acompanhar músicos do Brasil inteiro que vêm se apresentar no Clube do Choro. Então, para vocês, o registro da nata do Choro brasiliense.

Choro Livre - 1989

Lado A

1 – Novato (Esmeraldino Salles / Osvaldo Colagrande)
2 - Sorriso de Cristal (Luiz Americano)
3-  O’Ki Kirias (Avena de Castro)
4- Enigmático (Altamiro Carrilho)
5-  Estamos aí (Maurício Einhorn / Durval Ferreira / Regina Werneck)

Lado B

1-     Retratos 1º Movimento (Radamés Gnattali)
2-     Dedilhado (Orlando Silveira / Esmeraldino Salles)
3-     Sonho de um bandolim (Juventino Maciel)
4-     Ela e eu (Osvaldo Colagrande)
5-     Lembrando Jacob (Armandinho Macedo/ Luiz Brasil)






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