quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Carlos Poyares - Chão da Gente (09/12/2010)

Carlos Poyares foi uma das maiores figuras do Choro. Exímio flautista, participou ativamente da cena nacional do Choro dos anos 1950 até 1990. Uma de suas proezas mais impressionantes era tocar uma flauta de lata, conseguindo executar músicas difíceis até nas flautas mais sofisticadas, como, só para citar um exemplo, o choro 1x0, de Pixinguinha. Dizem que só ele conseguia tocar aquele negócio. Na década de 1990, passou a morar em Brasília. Aqui, participou da criação da Escola de Choro Raphael Rabello. O primeiro CD (depois de ter gravado mais de 80 vinis) também foi gravado em Brasília, em 1997. O título do CD é "Uma chorada na casa do Six", e contém choros clássicos e contemporâneos, além, é claro, da homenagem ao Assis “The Six”, um lendário cavaquinista de Brasília que possuía seis dedos nas mãos, e promovia, em sua casa, rodas de choro que duravam dias a fio, com muita comida, bebida e música. Contam que ele trazia músicos do Rio, para ver e participar das rodas em sua casa. Poyares gravou um disco em Brasília em que, além de tocar flauta, ele narra pequenas biografias dos grandes chorões. A última é a dele próprio, que transcrevo aqui:
Sou filho de violonista e flautista erudito, neto de dois maestros eruditos também. Nasci na cidade de Colatina – ES, em 5 de dezembro de 1928. Iniciei meus estudos de flauta aos cinco anos, com uma flautinha de lata de brinquedo. Fugi de casa aos 8 anos pra trabalhar em circo e poder tocar minha flauta, pois a minha família não queria, porque eu tinha tendência para a música popular. E ali no circo fiz todo o tipo de trabalho: fui trapezista, palhaço, contorcionista, e fui motociclista do globo da morte. Aos 17 anos, deixei o circo para trabalhar como ator de teatro. Mais tarde, com a criação do cinema no Brasil, eu fui fazer filme. Fui solista de diversos regionais do rádio, como o de Maurício de Oliveira, na Rádio Espírito Santo. Em Pernambuco, Bahia, Campos, no estado do Rio, e muitos outros do Rio de Janeiro, terminando como solista do Regional de Canhoto, o mais famoso que o Brasil teve. Tive o prazer de tocar nas melhores rádios e estúdios de TV do Brasil, e de gravar com os melhores cantores e solistas, como Baden Powell, Waldir Azevedo, Nelson Gonçalves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Dolores Duran, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro. Já trabalhei em muitas casas noturnas do Rio, de São Paulo, não apenas tocando Choro, mas também tocando Jazz e Bossa Nova, e até ritmos latino-americanos. Hoje, tenho mais de 81 álbuns gravados. Recebi muitos prêmios, como a chave do estado de São Paulo. Sou historiador e colecionador da música instrumental popular brasileira. Tive o privilégio de me apresentar na posse do Presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1995, e representar o Brasil através do mundo, e tenho orgulho em divulgar o Choro e a nossa cultura em muitos países da Europa.

Poyares tinha fama de mentiroso, não se sabe por quê. O próprio Six, em um livro que escreveu contando casos de amigos e chorões, dedica um capítulo a ele, de nome “O flautista mentiroso”. Ele assim descreve Poyares: “Um grande amigo meu, flautista emérito, de excepcional sensibilidade artística, lépido e fagueiro, comunicativo e loquaz, quando não está tocando, ordinariamente debulha a mentirola, com muita circunspeção e gravidade, de fazer inveja ao mais sisudo magistrado. È um verdadeiro fenômeno da psiquiatria”.  Depois, ele arremata: “O Poyares, entretanto, não vive somente de mentiras. É exímio instrumentista. Ótimo companheiro de orgia. É um artista do povo, simples e agradável, que nada cobra para exibir-se em qualquer boteco, por mais rodela que seja”. Mentiras à parte, o fato é que Poyares é ainda (apesar de já ter passado para o outro lado) uma presença que enriquece o Choro. Seja por suas histórias pitorescas, que não importa que não sejam verdade, porque são boas de escutar, seja pelas interpretações maravilhosas que deu a dezenas de choros. Ele dominava a linguagem do gênero como poucos, e basta ouvir algumas poucas gravações para identificar que ali há dedos e sopro de gênio. Nesse disco, gravado em 1977 pela Marcus Pereira, ele interpreta canções inspiradas em lugares. Destaco “Saudades de Matão”, uma valsa bela, de autoria de Jorge Galatti, A. Silva e Raul Torres.


Lado A

1-     Tardes em Lindóia(Zequinha de Abreu-Pinto Martins)
2-     Porto dos casais (Jaime L. Lubianca)
3-     Primavera no Rio/Copacabana (João de Barro-Alberto Ribeiro)
4-    Saudades de Ouro Preto (Murillo Alvarenga)
5-     Na baixa do sapateiro (Ary Barroso)
6-     Piracicaba(Newton de A. Melo)

Lado B

1-      Miraí – Meus tempos de criança (Ataulfo Alves)
2-     Meu pequeno Cachoeiro (Raul Sampaio)
3-     Recife, cidade lendária (Capiba)
4-     Noites de Orlândia (Carlos Poyares)
5-     Rapaziada do Braz (Alberto Marino)
6-     Saudades de Matão (Jorge Galatti-A. Silva-Raul Tôrres)

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