sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Altamiro revive Pattápio e interpreta clássicos (26/08/2011)

O título desse disco reúne dois dos maiores flautistas brasileiros de todos os tempos. Pattápio pertence às primeiras gerações da flauta brasileira. Mais informações sobre ele estão aqui no Acervo Origens, juntamente com a postagem de outro disco com suas composições. O disco de hoje, embora cheio de composições de Pattápio, é mais uma das coisas incríveis que Altamiro Carrilho fez. Se os flautistas são os humanos que cantam como os pássaros, Altamiro é o uirapuru, que silencia todos os outros quando entoa o seu canto. Nunca é demais lembrar que a flauta brasileira tem uma estirpe de grande respeito, que nada deve aos grandes flautistas europeus ou de qualquer outro lugar do mundo (podemos citar alguns nomes, como Callado, Pattápio, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Dante Santoro, Copinha, Carrasqueira, Manoelzinho, Poyares, Carlos Malta, Eduardo Neves e outros). Mas Altamiro é diferente. Ele destoa de todos os padrões conhecidos, porque chega a limites inimagináveis da técnica e da arte da flauta. Sua fluência na flauta é tamanha, sua familiaridade com o instrumento é tanta que ele verdadeiramente fala com a flauta. Seu talento é tão extraordinariamente fora do normal que Jean Pierre Rampal, um dos maiores flautistas contemporâneos, disse uma vez: Existem os flautistas. E existe Altamiro Carrilho.

Altamiro nasceu em Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro, em 1924. Desde os cinco anos, quando via o filho do vizinho tocar uma flautinha de brinquedo, a flauta começou a preencher os sonhos do garoto. Seu pai era dentista, e conseguia dar condições razoáveis para a família. Então, Altamiro freqüentava a escola. Mas, quando ele tinha nove anos, seu pai adoeceu e toda a família teve que se esforçar para botar a comida na mesa. Altamiro começou a trabalhar em uma tamancaria. Depois, passou a trabalhar como prático em uma farmácia. Sua família se mudou para Niterói, e Altamiro pretendia aprofundar seus estudos em farmácia. Nesse período, com 15 anos, ele dispunha de flautinhas de bambu, que ele praticava após o expediente. Havia um flautista, chamado Joaquim Fernandes, que o ensinava algumas coisas da flauta. Foi ele que incentivou Altamiro a comprar uma flauta de segunda mão. Ele ouvia, no rádio, Dante Santoro e Benedito Lacerda, e os imitava, sonhando alto. De posse da flauta, começou a andar nos auditórios das rádios cariocas, para ver os grandes flautistas e para participar dos programas de calouro. Na rádio Tupi, conquistou o primeiro lugar no programa de Ary Barroso, aos 17 anos. Daí então, Altamiro passou a ser conhecido, e cada vez mais requisitado. A primeira gravação foi aos 20 anos, acompanhando o sambista Moreira da Silva. Altamiro participou de vários regionais do rádio, sendo um de grande importância o Regional do Canhoto, que requisitou Altamiro para substituir seu ídolo, o Benedito Lacerda. Em 1955, montou a Bandinha de Altamiro Carrilho, em que tocava flauta e flautim e era acompanhado por um sexteto. Tanto com os regionais de choro quanto com sua bandinha, Altamiro gravou dezenas de discos, todos eles com interpretações impecáveis e espetaculares. Fez também várias viagens ao exterior; são mais de 40 países carimbados em seu passaporte.
Altamiro conseguiu também muito reconhecimento como flautista erudito. Se os diferentes gêneros musicais têm linguagens distintas, Altamiro é o gênio poliglota, porque sua flauta fala qualquer língua. Ele mesmo disse: Eu não acho diferença nenhuma entre o erudito e o popular. A música é uma só. Só existe um tipo de música: a boa.
O disco de hoje tem os talentos de Altamiro como músico popular e erudito; evidencia seu virtuosismo e sua sensibilidade interpretativa. Gravado em 1977, mostra também que, aos 53 anos, Altamiro tinha a força de um garoto de 23. São lindas e dificílimas Primeiro Amor, de Pattápio Silva, e Hora Staccato, de Dinicu. É bela também Despertar da Montanha, de Eduardo Souto.
Hoje, Altamiro, com 82 anos, faz apresentações, ainda que esparsas, porque sua saúde o tem limitado um pouco. Continua, como sempre, bem humorado. Recentemente, em dezembro de 2010, o público de Brasília pode vê-lo, com direito a uma homenagem tocante, organizada pela flautista Dolores Tomé, em que mais de 30 flautistas, ao final da apresentação, tocaram o Carinhoso da platéia. Nesse dia, vimos o mestre com lágrimas nos olhos e voz embargada. Inesquecível, assim como ele e sua obra, que viverão eternamente no sopro de cada flautista brasileiro.




Lado A

            01-Primeiro amor (Pattápio Silva) 
            02-Margarida (Pattápio Silva)
            03-Zinha (Pattápio Silva)
            04-Sonho (Pattápio Silva)
            05- Serata D’amore (Pattápio Silva)
 
      Lado B

01-Serenata Oriental (Ernesto Köller)
02-Despertar da montanha (Eduardo Souto)
03-Canção triste (Tchaikowsky)
04-Hora Staccato (Dinicu)
05-Canção primavera (Mendelssohn)
06-A galope (Altamiro Carrilho)

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