quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Joel Nascimento - Chorando pelos dedos (1976)

Texto: Gabriela Tunes
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A postagem de hoje traz esse belíssimo álbum, gravado por Joel Nascimento, um capítulo importante da bela história que o bandolim fez no Brasil. 
 1976 - Chorando pelos dedos

Surgido na Itália, entre os séculos XV e XVII, o bandolim  descende do alaúde, e, espalhando-se pela Europa, adquiriu diversos formatos e sonoridades. No Brasil, esteve presente nas primeiras gravações mecânicas realizadas no início do século XX pela Casa Édison, e o primeiro bandolinista célebre, reconhecido pelo virtuosismo, relatado inclusive no livro pioneiro Choro: Reminiscências dos Chorões, do carteiro e chorão Alexandre Gonçalves Pinto, foi Luperce Miranda. Nascido em Recife, em 1904, aos 28 anos de idade foi morar no Rio de Janeiro. Luperce apresentava virtuosismo impressionante, com técnica e sonoridade típicas dos bandolinistas napolitanos, embora os utilizasse em repertórios nordestinos.  Mais jovem do que Luperce, Jacob do Bandolim foi sem dúvida o grande marco na história do bandolim brasileiro.  Embora tenha iniciado seu aprendizado em um bandolim napolitano, o estilo de Jacob foi inspirado na guitarra portuguesa, cuja sonoridade e técnica ele considerava mais próximos da música brasileira. Ele trocou o bandolim napolitano, em formato de cuia, por um bandolim achatado, parecido com a guitarra portuguesa. Essa fusão física e sonora entre o bandolim italiano e a guitarra portuguesa, empreendida por Jacob, iria designar a trajetória do bandolim brasileiro dali por diante.  Jacob inovou em diversos aspectos, notadamente no que diz respeito à interpretação dos choros, cujas notas, ornamentos, frases, improvisos, orientados pelo seu incrível senso estético, eram minuciosamente escolhidos, de forma a não sobrar nem faltar nada. Do mesmo modo, ouvindo as gravações antigas, percebe-se nitidamente que Jacob aperfeiçoou a sonoridade do bandolim, tanto no que diz respeito à produção do som, quanto em relação à captação e gravação, e o resultado de seu intenso e apaixonado trabalho, além das performances ao vivo, que somente quem estava lá viu, são seus discos. Lindos, insuperáveis, até mesmo pelo virtuose dos virtuoses do bandolim, que poderá porventura surgir daqui a mil anos. Por isso, Jacob do Bandolim foi amplamente imitado, deixando como legado uma sólida escola.

Joel Nascimento justamente figura entre os grandes discípulos de Jacob. Joel nasceu no dia 13 de outubro de 1937, no subúrbio da Penha. Na adolescência, foi estudar piano, e, logo depois, acordeom. Aos 18, Joel ingressou no Conservatório Brasileiro de Música, e lá permaneceu por alguns anos, até que foi acometido por uma osteoclerose, que lhe deixou surdo do ouvido esquerdo. Como ele já trabalhava, largou a música. Mais tarde, quando ele já passava dos trinta anos, voltou a tocar, agora cavaquinho, e a freqüentar rodas de choro. Um dia, ganhou um bandolim de presente. Joel foi tocando cada vez mais, conciliando a vida de músico amador com o emprego de técnico em radiologia. Somente em 1974, ele começou a atuar como bandolinista profissional, já demonstrando enorme talento. Ainda na década de 1970, Joel foi solista da Camerata Carioca, um dos grupos mais importantes da história recente do Choro. Além de Joel Nascimento, a Camerata Carioca tinha  Celsinho Silva no pandeiro, Luciana Rabello no cavaquinho, e Luiz Otávio Braga, Maurício Carrilho e Raphael Rabello nos violões.  
 No ano de 1976, pela gravadora Odeon, Joel Nascimento lançou seu primeiro disco, que postamos hoje aqui.  "Chorando pelos dedos" foi produzido por João Nogueira, e contou com um conjunto de instrumentistas simplesmente estarrecedor, tais como: Guinga, Paulo Moura, Jorginho da flauta, Luis Roberto; tem ainda Dino 7 Cordas, Cláudio Jorge, nas seis cordas, Canhoto, no cavaquinho, Jorginho, no pandeiro, Abel Ferreira na clarineta e Zé da Velha, no trombone, entre vários outros. Como o disco não tem ficha técnica, e esses grandes músicos fizeram participações em algumas faixas, não dá para saber exatamente quem toca em qual. Ouvindo atentamente, percebemos as nuances interpretativas que Joel herdou de Jacob, nas palhetadas firmes, ornamentos e dinâmicas. O destaque, inclusive, é a primeira faixa do Lado A, Ecos, de autoria de Joel, em que ele, em alternâncias de dinâmica, simula o efeito do eco. Cabe destacar também o Chorinho do Sovaco de Cobra, que tem Dino 7 Cordas, Canhoto, no cavaquinho, mais Abel Ferreira e Zé da Velha, dividindo solos e contrapontos geniais. No dicionário Cravo Albin da música brasileira, tem uma passagem que conta que o disco foi lançado exatamente no bar Sovaco de Cobra, um boteco copo sujo típico de chorões, em uma festa antológica. Sorte de quem viu.

Fontes:

MOURA, Jorge Antonio Cardoso. Tradição e inovação na prática do bandolim brasileiro. 2011. 142 p. Dissertação de Mestrado  - Universidade de Brasília. Disponível em http://repositorio.unb.br/handle/10482/10040.

CORTES, Almir. O Estilo Interpretativo de Jacob do Bandolim. 2006. 142 p. Dissertação de Mestrado, Universidade de Campinas. Disponível em

Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira, em www.dicionariompb.com.br

 

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