O Acervo Origens é uma iniciativa do violeiro, pesquisador e produtor musical Cacai Nunes e visa pesquisar, catalogar, divulgar e compartilhar conteúdos musicais na internet e em atividades culturais das mais diversas como shows, saraus, bailes de forró e programas de rádio. Ao identificar, articular e divulgar a música brasileira, sua história e elementos – entendidos como o conjunto entrelaçado de saberes, experiências e expressões de pessoas, grupos e comunidades, sobre os mais diversos temas – o ACERVO ORIGENS visa contribuir para a geração e distribuição de um valioso conhecimento, muitas vezes ignorado e disperso pelo território nacional.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dona Ivone Lara - Samba Minha Verdade, Samba Minha Raiz (1979)


DONA IVONE LARA – SAMBA MINHA VERDADE, SAMBA MINHA RAIZ (1979)
 Eis um disco fenomenal, tanto em respeito ao seu conteúdo musical, quanto em relação à artista em questão, e à sua bela e emocionante história de vida. Sobre Dona Ivone Lara, existe uma excelente Tese de Doutorado, escrita respeitando os cânones acadêmicos, mas com emoção e poesia, como deve ser o texto que trata de uma grande poeta do samba. A Tese se chama “Dona Ivone Lara: Voz e Corpo da Síncopa do Samba”, e é de autoria de Katia Regina da Costa Santos. Quem quiser saber mais sobre Dona Ivone Lara, acesse o trabalho aqui. Foi esse magnífico trabalho a fonte para o textinho dessa postagem.


 Yvonne Lara da Costa é seu nome de batismo. Ela nasceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de Abril de 1921, negra, pobre, filha de empregada doméstica. Quase não conheceu o pai, e perdeu a mãe aos doze anos de idade. Antes disso, porém, quando a pequena menina completava nove anos, a boa patroa da mãe resolveu bancar-lhe os estudos, e Yvonne ingressou como aluna interna na Escola Orsina da Fonseca. Era para ficar no colégio interno até os 18 anos, mas seu tio, Dionísio Bento da Silva, resolveu levar a adolescente órfã para casa quando ela tinha 16 anos. Ao contrário da maioria dos alunos ex-internos, Yvonne não se queixa de ter passado tanto tempo no internato. Ela percebia que sua condição de negra e pobre a deixariam longe dos estudos, e, no colégio, aprendeu a ler, escrever, e teve formação digna dos filhos das melhores famílias. Reconhece, também, que isso foi fundamental em sua trajetória de vida. Mesmo no internato, ela freqüentava a casa dos parentes nas folgas, de forma que tinha contato intenso com cantores, compositores, batuqueiros, jongueiros, e tudo o mais que fazia parte da rica cultura da comunidade dos sambistas cariocas. Assim, então, na pessoa de Yvonne, fundiram-se os mundos apartados dos brancos ricos e dos negros pobres. Era negra com educação de branca.  Quando saiu do internato, o tio avisou que, como todo mundo, ela teria que trabalhar. Ele conseguiria um emprego na fábrica, porque, de fato, as colocações dos negros, na época, eram de empregados domésticos, operários, e outros empregos considerados baixos. Obediente que era, Yvonne acatou a decisão do tio. Mas inteligente que também era, pediu a ele permissão para tentar outra coisa, afinal, ela havia estudado tanto, era letrada, e isso haveria de ajudar. E ajudou. No Jornal do Brasil ela leu que estavam abertas inscrições para um curso na Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Ela pediu ao tio, se inscreveu e passou entre as dez primeiras colocadas, o que lhe garantia uma ajuda de custo mensal. Desde então, ela contribuía com as despesas da casa. Yvonne passou seis anos trabalhando como enfermeira. Ela largou a enfermagem porque ingressou em um curso de Serviço Social, e formou-se assistente social, ofício que exerceu por trinta e sete anos. Foram enormes os seus feitos: foi uma das primeiras assistentes sociais do país e uma das primeiras mulheres negras a adquirirem formação no nível de terceiro grau. Mais incrível ainda, porém, é que não foi por isso que Yvonne ganhou lugar de destaque na história. Toda a educação formal que recebeu, ainda que de primeira qualidade, juntamente com seus dignos empregos, não deram a ela nem um décimo do que ela recebeu do samba.
Porém - aaaaaaaai, porém -, a pedagogia do samba, meu bem, é outra. Ela não precisa das salas fechadas, dos muros altos, dos cadeados nos portões, e nem dos quadros- negros com professores enfiando conteúdos goela abaixo dos alunos. Ela não requer nem o tempo nem o espaço escolares, separados da vida vivida comum de todos os dias. Acontece junto. Dona Ivone Lara se lembra muito bem disso. Ela conta que os primeiros sambas aprendeu ainda criança, por causa de uma prática comum na época, quando - em um tempo em que não existiam gravadores, nem iPods, nem rádio, nem nada, e nem os sambistas sabiam muito bem registrar melodias no papel -, os adultos compositores usavam as crianças para ajudarem na memorização dos sambas que compunham.  Eles botavam as crianças para fazer coro, chamavam-nas para ajudarem a relembrar o samba que cantaram outro dia. Desse modo, as crianças envolviam-se naturalmente no samba, e aprendiam. Daí, alguns se interessavam pelos instrumentos, outros pelo canto, outros pela arte de compor. E os adultos ensinavam as posições no cavaquinho, as levadinhas no pandeiro, e tudo o mais que sabiam. Yvonne pegava o cavaquinho, acompanhava o tio. Aos doze anos, compôs a primeira música, em homenagem ao Tiê, seu pássaro de estimação, que ela amava, e fazia dezenas de versos para ele.
A vida de Ivone encontrou um equilíbrio entre o trabalho como Assistente Social, sendo ela funcionária exemplar, que nunca faltava, e nem fazia questão das licenças a que tinha direito, e a vida de sambista. Só que vida de sambista mulher não era tão simples. No começo, sua família não gostava que uma moça de família, prendada e educada, ficasse se metendo com samba e malandragem. Além disso, Ivone era compositora, mas quem daria qualquer coisa para um samba composto por mulher? Os sambas dos homens certamente teriam acolhida melhor do que os dela, que talvez nem chegassem a ser tocados. Então, ela ficava mais quieta, no canto dela, embora sempre perto do samba. Só que, às vezes, as coisas mudam. Em 1965, quando ela já estava casada, e seguia compondo, e apresentando seus sambas em rodas de pagode domésticas, a Império Serrano, escola de samba fundada em 1947, resolveu mudar algumas coisas no carnaval, e uma delas incluía a Dona Ivone Lara. Ela conta que  era a única mulher entre 400 homens, e ela passou oficialmente a fazer parte da ala de compositores da escola. Ela agradece a aceitação, algo inusitado na época (talvez hoje também, se a gente for olhar a quantidade de mulheres integrantes das alas de compositores das escolas de samba).
Depois de aposentada, depois de todas as obrigações cumpridas, a vida de Dona Ivone haveria de mudar novamente. Tudo começou no ano de 1978, em um gurrufim, no enterro regado a música e bebida do compositor Silas de Oliveira. Lá ela conheceu Délcio Carvalho, seu grande parceiro musical, com quem ela compôs as obras que nunca deixarão de ser tocadas e cantadas. O samba, que vinha na linha paralela ao trajeto profissional da vida de Dona Ivone, passou a ser sua ocupação principal. Finalmente, chegamos ao momento da postagem do disco de hoje. Quando Dona Ivone já era uma senhora de 56 anos de idade, aposentada, feliz da vida, gravou seu primeiro disco solo, justamente esse Samba, Minha Verdade, Samba Minha Raiz. Adelzon Alves foi o produtor. Na ficha de apresentação da artista, no encarte do disco, está assim:  Dona de casa, mãe de dois filhos, enfermeira e assistente social há 37 anos. Somente agora, aposentada, é que dona Ivone pôde começar sua carreira artística, coisa que já fazia domesticamente, e no Império Serrano desde os 12 anos de idade. Já na capa percebemos que o disco queria mostrar Dona Ivone Lara como sambista de raiz, mulher respeitada entre os bambas do samba, também retratados na capa do disco. Na bela fotografia, ela aparece no meio desses homens de aparência simples, mas cheios de reputação no universo do samba. A imagem é perfeitamente coerente com o conteúdo musical do disco. Samba de primeira, feito por uma grande poeta e sambista, mulher que será eternamente reverenciada.

Lado A
     1.     Minha Verdade – Yvonne Lara/ Délcio Carvalho
2.    
Com Ele É Assim - Yvonne Lara

3.    
O Império Tocou Reunir – Silas de Oliveira/Mano Décio
     4.     Espelho da Vida – Yvonne Lara/Délcio Carvalho
     5.     Chegou Quem Faltava – Nilson Gonçalves
   6.   Em Cada Canto Uma Esperança - Yvonne Lara/Délcio Carvalho


Lado B
       7.     Samba, Minha Raiz - Yvonne Lara/Délcio Carvalho
       8.     Andei Para Curimã - Yvonne Lara
       9.     Quando A Maré – Antônio Caetano
      10.  Nas Sombras da Vida - Yvonne Lara/Délcio Carvalho
11. 
Prazer da Serrinha – Helio dos Santos/Rubens da Silva
 12.  Aprendi a Sofrer - Yvonne Lara/Délcio Carvalho

Um comentário:

estudante disse...

Que maravilha! Dona Ivone não existiu, foi um sonho que a gente teve! Salve a Rainha do Samba!