quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dobrados - Pesquisa, restauração, arranjos e regência Regis Duprat e Rogério Duprat (27/04/2011)

O dobrado é um gênero musical interessantíssimo. Primeiramente, porque todo mundo acha que conhece, principalmente os músicos; mas, na realidade, o dobrado é pouquíssimo conhecido, fato constatado pelas escassas referências bibliográficas sobre o gênero. O que todos sabem é que dobrados são músicas tocadas por bandas militares. Os dobrados, portanto, têm algo a ver com a atividade militar, mesmo que isso pareça uma afirmação meio sem nexo. Mas, voltando no tempo, acharemos a lógica disso. Desde sua origem, as tropas militares marcham, a pé ou a cavalo. Dependendo da ocasião ou da situação tática, a cadência da marcha varia; a marcação dessa cadência sempre foi feita por bombos e tambores, acompanhados por pífanos, flautins, trombetas e outros instrumentos. Ao longo do tempo, o termo marcha passou a designar, além do deslocar-se à pé ou montado, a música produzida pelo grupo que marcava a cadência. As cadências variam conforme as situações táticas; há basicamente três cadências para os deslocamentos da infantaria: o passo de estrada, que é uma marcha lenta e pesada, utilizada em percursos longos; o passo de parada ou passo dobrado, marcha bem mais rápida, com andamento próximo ao dobro do anterior, utilizada em desfiles, continências e paradas militares; e o passo acelerado, marcha de ataque para a tomada de pontos do terreno. As três cadências, nas tropas de cavalaria, correspondem ao passo, ao trote e ao galope. A marcação do tempo, no metrônomo, para as cadências, seria a seguinte: 68 a 76 bpm, para o passo de estrada; 112 a 124 bpm para o passo dobrado; e 160 bpm, para o passo acelerado ou galope. Com o tempo, o termo passo dobrado, que designava o andamento das marchas rápidas, passou a designar todas as marchas das paradas, continências e desfiles. O passo dobrado é, musical e literalmente, o passo doppio dos italianos, o paso doble dos espanhóis, o pas-redoublé dos franceses ou simplesmente a march de ingleses e alemães. Em todos os países, as marchas militares foram incorporando características nacionais. Por exemplo, as marchas inglesas são mais rápidas do que as latinas, que são também mais rápidas do que as norte-americanas. No Brasil, sendo as marchas executadas em todo o território nacional, elas ficaram expostas às influências de vários outros gêneros brasileiros. Lentamente, então, foi se consolidando uma marcha brasileira, que recebeu a denominação genérica de dobrado. O dobrado brasileiro foi adquirindo características próprias, que o afastaram do passo dobrado e de outras marchas européias; desse modo, o dobrado foi se tornando a marcha brasileira. No final do século XIX, o dobrado já possuía características melódicas, harmônicas, formais e contrapontísticas que o distinguiam de outros gêneros musicais, permitindo assim a sua inclusão no rol dos gêneros musicais genuinamente brasileiros. Os dobrados, no Brasil, são tocados não somente por bandas militares, mas por bandas de coretos com várias formações instrumentais. Essas bandas são, historicamente, uma das principais escolas de instrumentistas brasileiros, principalmente de sopro. O disco da postagem de hoje, produzido no final da década de 1970, resultou de pesquisa realizada por Régis e Rogério Duprat, dois dos mais renomados musicólogos do Brasil; embora tenha o selo da Copacabana, o disco foi produzido por Marcus Pereira (que mais uma vez estava à frente de um trabalho realmente importante para a música brasileira). O disco tem dobrados brasileiros típicos. Reparem que as primeiras músicas têm andamento mais acelerado. Sobre isso, o próprio Régis Duprat explica na contracapa: “o ritmo, então, torna-se mais cômodo, mais lânguido; fixa-se o seu andamento por volta de 110 passos por minuto. Poderíamos explicá-lo por seus conluios com a languidez do lundu, do tanguinho, do maxixe, e pela tropicalização generalizada que os gêneros ganharam nestes Brasis.” Ouçamos, portanto, essa verdadeira aula de música brasileira.


Lado A

1-Hespanha (José Randolfo Lorena)
2-Júlio Nolasco (João Pirahy)
3-Gonzaga Falcão (Lodovico da Riva)
4-São Thiago (Dalmácio F. Negão Jr.)

Lado B

1-Tenente Godofredo Lima (José Virgínio Silva)
2-Belo Horizonte (Júlio Cezar do Nascimento)
3-Longe do Mar (Francisco Farina)
4-Saudades d’Apparecida (Domingos José de Paula)
5-Os Conselheristas (Anônimo)

5 comentários:

300 Discos Importantes disse...

Valeu, Cacai! Este era um disco que eu estava procurando há um bom tempo. Muito obrigado!

300 Discos Importantes disse...

Esqueci de dizer: atualizei a postagem no meu blog, apontando para cá - http://300discos.wordpress.com/2011/03/02/mp99-regis-duprat-rogerio-duprat-serie-tres-seculos-de-musica-brasileira-vol-4-dobrados-1978/ . Quem sabe você não consegue mais algum dos discos que estão em minha lista "Não Tenho"?

Alessandro disse...

Cara, imediatamente me veio essa melodia contrapontística, dobrada e independente de primeira na memória. Ouvir esse arquivo de áudio só reafirmou minha memória que, de fato, remete a situações de desfile militar e outras onde as paradas de funfarra são a atração. A pesquisa está ótima, parabéns aos escarafunchadores de plantão que reavivam o conhecimento da memória da pele!

Marcelo China disse...

Cacai,
Tudo bem?
Como faço pra baixar?
Abs.

Nossa Produtora disse...

Cacai... Qd pensa que não tô ouvindo uma musiquinha para palhaças... Bj.