O Acervo Origens é uma iniciativa do violeiro, pesquisador e produtor musical Cacai Nunes e visa pesquisar, catalogar, divulgar e compartilhar conteúdos musicais na internet e em atividades culturais das mais diversas como shows, saraus, bailes de forró e programas de rádio. Ao identificar, articular e divulgar a música brasileira, sua história e elementos – entendidos como o conjunto entrelaçado de saberes, experiências e expressões de pessoas, grupos e comunidades, sobre os mais diversos temas – o ACERVO ORIGENS visa contribuir para a geração e distribuição de um valioso conhecimento, muitas vezes ignorado e disperso pelo território nacional.
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segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Programa Acervo Origens - 12nov23

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Paypal: cacainunes@gmail.com
www.acervoorigens.com

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O Programa Acervo Origens apresenta o bandolim de Joel Nascimento, Antonio Nóbrega em músicas de seu álbum Na Pancada do Ganzá, de 1996, Rolando Boldrin cantando Raul Torres e Alvarenga e Ranchinho, e os cocos e emboladas com Manezinho Araújo.

Pesquisa, produção e apresentação: Cacai Nunes



1) Sambista chorão (Mané do Cavaco) com Joel Nascimento
2) Evocação de Jacob (Avena de Castro) com Joel Nascimento
3) Ecos (Joel Nascimento) com Joel Nascimento
4) Waves (Antonio Carlos Jobim) com Joel Nascimento

5) 1º movimento do concerto de bach em re menor pra rebeca e flauta (Johann Sebastian Bach) com Antonio Nóbrega
6) Desassombrado (Antonio Nóbrega) com Antonio Nóbrega
7) Serenata suburbana (Capiba) com Antonio Nóbrega

8) Casinha de paia (Alvarenga - Ranchinho) com Rolando Boldrin
9) Recordação (Raul Torres) com Rolando Boldrin
10) Vaca Estrela e Boi Fubá (Patativa do Assaré) com Rolando Boldrin
11) Vide vida marvada (Rolando Boldrin) com Rolando Boldrin

12) Tadinho do Manezinho (Manezinho Araújo) com Manezinho Araújo
13) Futebol na roça (Manezinho Araújo) com Manezinho Araújo
14) Sulandá (Manezinho Araújo) com Manezinho Araújo
15) Olha o buraco cavalheiro (Manezinho Araújo) com Manezinho Araújo
16) Pra onde vai valente (Manezinho Araújo) com Manezinho Araújo

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Programa Acervo Origens - 05fev22

O Programa Acervo Origens desta semana apresenta o acordeom de Ribamar acompanhado de seu conjunto, Adelaide Chiozzo acompanhada de Claudio Mattos, conjunto e orquestra, o cavaquinho de Índio do Cavaquinho, grande referência do instrumento, sambas de Leci Brandão lançados em seu álbum de 1976 e a voz e o balanço de Carmelita com o Trio Caruaru em faixas lançadas em raro álbum pela gravadora Cantagalo.



1) Insinuando (José Scarambone) com Ribamar e seu conjunto
2) Duas vidas (Ribamar - Esdras Pereira da Silva) com Ribamar e seu conjunto
3) Nós três (Chiquinho - Garoto- Fafá Lemos) com Ribamar e seu conjunto
4) Mambinho (Garoto - Chiquinho) com Ribamar e seu conjunto

5) Viagem à Cuba (Irving Fields - Hubert Ithier) com Adelaide Chiozzo
6) É samba (Vicente Paiva - Luiz Iglezias - Walter Pinto) com Adelaide Chiozzo
7) Deixa comigo (Índio) com Adelaide Chiozzo
8) Meu veleiro (Lina Pesce) com Adelaide Chiozzo

9) Do re mi (Fernando Cesar) com Índio e seu conjunto
10) Bá (Edson França - Costa Neto) com Índio e seu conjunto
11) Nasci para bailar (Joel de Andrade - Tasyro) com Índio e seu conjunto
12) Minha saudade (João Donato) com Índio e seu conjunto

13) Maria bela, Maria feia (Leci Brandão) com Leci Brandão
14) Epitáfio de um sambista (Wilson Bombeiro) com Leci Brandão
15) Deixa pra lá (Leci Brandão) com Leci Brandão

16) Cuidado menina (Durval Vieira) com Carmelita e Trio Caruaru
17) Sanfoneiro preguiçoso (Zé Calixto) com Carmelita e Trio Caruaru
18) Forró do Pedro (Durval Vieira) com Carmelita e Trio Caruaru
19) Balanço do ganzá (Joci Batista) com Carmelita e Trio Caruaru

Pesquisa, produção e apresentação: Cacai Nunes

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Do lado de lá - Maracatu (Adelino Rivera - Antonio Barros)

O salão estava cheio e o baile fervendo.
Era mulher rodopiando dum lado pro outro e um danado dum rapazote serelepe nas sandálias, parecendo que estava matando uma centena de baratas no chão. Ah, e tinha gente incomodada com essas estaladas no chão.
Então, uma moça estrangeira pede para o DJ a música Maracatu do RAPadura Xique-Chico. Daí, rapidamente ele avisa que vai tocar a versão que deu origem à tal música do Rapentista.
E foi, então, que ele sacou o LP da RCA de 1960 com Marinês e sua gente + Regional do Canhoto interpretando um maracatu pra lá de atual.
E a moça estrangeira foi vista com sua pele branca e o rosto rosado de tanta alegria e suor. Era um sorriso verdadeiro e contagiante. Só um maracatu zabumbado para fazer isso.
Já pensou na atualidade dessa música que foi gravada há mais de 50 anos ??
Já pensou aonde essa música está chegando por meio de recriação de nossos artistas ?
Viva Rapadura Xique-Chico, Viva Marinês e sua Gente
Viva nossa música nordestina !
Curta o Forró de Vitrola


DO LADO DE LÁ (Adelino Rivera - Antonio Barros)
"Va batendo o zabumba
Que eu balanço o ganzá
Vamos formar um batuque
Pro povo dançar
Maracatu, do lado de lá
Nós já temos zabumba
Nós já temos ganzá
Ta faltando um gongue
Mais mandei buscar
Não quero que sai ninguém
Sem ver meu batuque pesar
Porque o meu maracatu
É bom de dançar
É do lado de lá,
É bom de dançar "

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Baracho e seus Cirandeiros - Ciranda no Pátio de São Pedro (20/09/2011)

A Ciranda é uma dança de roda muito conhecida como brincadeira infantil. Mas, em Pernambuco, a ciranda é de todos, praticada por adultos, jovens, crianças, velhos, homens e mulheres. Na ciranda, costuma haver um mestre, um contra-mestre e os músicos, que ficam no centro da roda (normalmente tocam zabumba, caixa e ganzá, mas outros instrumentos podem aparecer). Os participantes são os cirandeiros e cirandeiras. A roda começa, em sentido anti-horário, normalmente pequena, e vai aumentando com a chegada de mais cirandeiros. Cabe ao mestre a responsabilidade de iniciar e comandar a animação, de tirar os cantos e de tocar o ganzá. É o integrante mais importante, e, muitas vezes, seu nome identifica a ciranda, como a Ciranda de Lia, a Ciranda de Dona Duda, a Ciranda de Baracho. O Mestre Baracho da Ciranda, cujo nome era Antônio Baracho da Silva, nasceu em Nazaré da Mata, em Pernambuco. Ainda muito pequeno, mudou-se para Abreu e Lima, onde passou a maior parte da vida. Foi um grande compositor de cirandas, e foi também Mestre de Maracatu. Como nunca se preocupou com os registros legais da autoria, várias de suas composições foram gravadas por outros artistas, sem menção à sua autoria. A autoria da famosa Lia de Itamaracá, cujos versos são os mais conhecidos da ciranda (Essa ciranda quem me deu foi Lia / Que mora na ilha / de Itamaracá) é objeto de pendengas e brigas entre Baracho, seus descendentes, a própria Lia de Itamaracá e Teca Calazans.  Também é atribuída a Baracho a autoria dos versos “Ó cirandeiro, cirandeiro ó, a pedra do seu anel / brilha mais do que o sol”, que foram utilizados na música “Cirandeiro”, de Edu Lobo e Capinam, sem que Baracho fosse citado como autor. Ele faleceu em 1988, aos 81 anos, de câncer na garganta, em decorrência de anos fumando. Esse é um dos poucos registros de sua ciranda. Ele tem a famosa Lia de Itamaracá, mas tem outras belas canções, como Minha Melodia. Reparem na capa, ela transmite o clima de paz e alegria que reina nas cirandas.


Lado A

        01-Lia de Itamaracá
         Morena vem ver
         Lembranças de Brasília
         Cavalo de aço
        02-Boneca cobiçada
        03-Quem ama sofre
        04-Minha melodia

 Lado B

01-Meus cabelos brancos
 Praça do Brás
 Pontas de pedras
02-Praia de Lucena
03-Copacabana
04-Despedida

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Jackson do Pandeiro - Isso é que é forró (25/08/2011)

Jackson do Pandeiro nasceu como José Gomes Filho, em 31 de Agosto de 1919, em um casebre na zona rural no município de Alagoa Grande, na Paraíba. Seu pai era o oleiro José Gomes, e sua mãe, a cantora de côco Flora Maria da Conceição. O menino Zé cresceu solto no mato, nunca freqüentou escola alguma, e até 1930 não se poderia imaginar que seu futuro lhe reservava o título de “rei”.  Alagoa Grande tinha a peculiaridade de ter um universo musical bem rico; tinha cantadores de côco, entre os quais a mãe de Jackson, cujo nome artístico era Flora Mourão, figurava entre os melhores; ficava próximo de um remanescente de Quilombo, o Caiana dos Crioulos, que trazia uma preciosa herança musical africana; lá tinha também uma escola de música, em que poucos privilegiados tiveram acesso a algum ensino formal de música. Não foi o caso de Jackson. Sua mestra, e seu ícone, por toda a vida, foi sua mãe, a guerreira do côco Flora Mourão. Ela era, como ele, mulata, magra, pobre; andava com um vestido branco surrado, que Jackson carregou na mala até o último dia de sua vida. Quando José Gomes faleceu, Flora casou-se com outro José, com quem teve mais dois filhos. O segundo José era, porém, valentão e cachaceiro. Uma vez, chegando em casa bêbado, tentou agredir Jackson. Foi a única e derradeira vez, porque Flora botou o cabra para correr. Daí ela ficou só com os filhos, e tinha que dar conta de tudo. O dinheiro ela fazia cantando os cocos em qualquer lugar que fosse chamada. Ela cantava com o tal vestido branco, um único sapato que lhe pertencia e um lenço perfumado, que enrolava no pescoço. Quando a apresentação acabava, o lenço recebia os escambos: leite, pão, moedas, notas. Ela o chamava de lenço da sorte. Mais tarde, Jackson o utilizava quando precisava da força espiritual do lenço e de sua mãe. Flora cuidava dos filhos e da casa também, e conseguia fazer umas rodas de côco domésticas. Nelas, Jackson, que ainda era o pequeno Zé, com apenas 7 ou 8 anos, ficava vendo e ouvindo tudo, e fazendo a marcação do ritmo com o pé. Os instrumentos, a zabumba e o ganzá, ficavam pendurados na parede da sala, e despertavam os sonhos de Jackson, de tocá-los com a intimidade de sua mãe e do zabumbeiro que a acompanhava, chamado João Feitosa. Um dia, ele faltou. O menino José ouvia a lamentação da mãe, e percebeu sua angústia pela falta do homem. José, com sete anos, subiu no tamborete, alcançou a zabumba e gritou: “Mãe, agora não precisa mais de Seu João Feitosa nem de ninguém. Eu já sei tocar o bumbo”. Três anos depois, Jackson já ocupava o lugar do zabumbeiro nas tocatas de sua mãe.
A vida inteira de Jackson foi, do mesmo modo como sua infância e iniciação musical, rica, interessante e repleta de passagens emocionantes. Ele gravou dezenas de discos. O que o Acervo Origens disponibiliza hoje foi o último de sua carreira, lançado em 1981, um ano antes de sua morte. O último disco de nosso rei tem a maturidade dos 29 anos de carreira artística, juntamente com o vigor de alguém que nunca abandonou a juventude. Destaco a faixa 5 do lado B, “Bola de Pé em Pé”, uma homenagem de Jackson ao Flamengo, uma de suas maiores paixões. Muito boa também é “Mundo Cão” (faixa 3 do Lado B).


Lado A

1-Cabeça feita (Jackson do Pandeiro-Sebastião Batista da Silva)
2-Tem pouca diferença (Durval Vieira)
3-Herança de meu pai (Benício Guimarães)
4-Mãe solteira (Severino Ramos-Antonio Rodrigues)
5-Samambaia trepadeira (Gervásio Horta)
6-Eu vou pra lá (Benício Guimarães)

  Lado B

1-Competente demais (Valdemar Lima-Jackson do Pandeiro)
2-Quem tem um não tem nem um (Durval Vieira-Jorge Paulo)
3-Mundo cão (Jackson do Pandeiro-Rogéria Ribeirão)
4-São Tomé (Assunção Corrêa-Jackson do Pandeiro)
5- Bola de pé em pé (Jackson do Pandeiro-Sebastião Batista da Silva)


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pinduca No embalo do carimbó e sirimbó (03/08/2011)

O Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luiz da Camara Cascudo, define o Carimbó como dança negra, brasileira, de roda, em Marajó, arredores de Belém, no Pará (...). A dança do carimbó ocorre na área pastoril de Soure (Marajó), nas zonas de lavradores do Salgado (Curuçá, Marapanim, Maracanã), tanto na terra firme, como nas praias. A palavra Carimbó é de origem tupi: curi que significa pau oco, e mbó que significa furado. Com o passar do tempo, o termo foi sofrendo variações: curimbó, corembó, corimbo, curimã.. O Carimbó é um gênero musical que, como muitos outros, surgiu juntamente com uma dança. Ele era, originalmente, um ritmo indígena dos índios tupinambás, que habitavam o norte do Brasil, e tinha mesmo aquela monotonia típica das danças indígenas. Os negros, que foram em grande quantidade para o norte, no ciclo da borracha, então, começaram a introduzir alterações no ritmo, para que pudesse ser dançado com mais ginga, e inseriram coisas dos batuques africanos, tanto na música quanto na dança. Os portugueses, por sua vez, inseriram elementos das musicas e danças europeias como, por exemplo, os dedos castanholando e marcando o ritmo. Então, o carimbó é um gênero brasileiríssimo, porque surgiu a partir da mistura de elementos indígenas, africanos e europeus, os três tendo igual influência e importância.
A alma do Carimbó, como o próprio nome já diz, são os tambores. Eles são feitos de troncos de árvores escavados, com uma abertura lateral em toda a extensão para emissão do som, e fechados numa das extremidades por pele de animal silvestre. Os outros instrumentos que tocam o Carimbó são reco-reco, violá, ganzá, banjo, maracás e flauta.  O Carimbó tem uma vestimenta típica. Os homens com blusas lisas ou estampadas sobre calças lisas; lenço no pescoço, chapéu de arumã. As mulheres usam blusas que deixam ombros e barriga à mostra, muitos colares e pulseiras feitos de sementes da região, e saias rodadas ou franzidas coloridas ou estampadas. Elas usam flores ou arranjos na cabeça, e vários enfeites. Homens e mulheres dançam descalços.
O Carimbó saiu do contexto rural amazônico, urbanizou-se e é hoje uma expressão da cultura nortista da maior relevância. Pinduca, conhecido como o Rei do Carimbó, é um de seus representantes mais célebres. Esse disco, gravado em 1976, é de enorme importância em sua carreira, porque se transformou em uma das principais referências do gênero Carimbó. Mais interessante é constatar que a origem da lambada, ritmo brasileiro de grande sucesso nas décadas de 1980 e 1990, é associada a esse disco, que tem uma música denominada Lambada. Essa é considerada a primeira gravação de uma lambada.


Lado A

1-Lári lári ê – Lári Lári (Pinduca – Maria Isabel Pureza).
2-Minha Maria – Sirimbó (Pinduca)
3-Carimbo do Pará – Carimbo (Pinduca)
4-Passarinho – Carimbo (Pinduca – João Antonio de Oliveira)
5-Vaqueiro – Carimbo (Pinduca – João Antonio de Oliveira)
6-Lambada – Sambão (Pinduca)

Lado B

1-Comancheira – Yô, yô, yá, yá (Comancheira) (Pinduca)
2-Lá lariá – Lári, lári(Pinduca – Edualvaro Magno Marques)
3-Coisa boa do Pará – Carimbo(Pinduca – Carlos Santiago Mamede)
4-Boca de forno – Carimbo (Pinduca)
5- Comprando fiado – Sirimbó (Pinduca – Carlos Santiago Mamede)
6- Mutirão – Carimbo (Pinduca – Nauar)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pernambuco do Pandeiro (11/07/2011)

Na madrugada do dia 09 de julho de 2011, nosso querido Pernambuco do Pandeiro fez sua passagem para o outro lado, depois de 86 anos absolutamente bem vividos. Ele sofria de diabetes, foi acometido por uma pneumonia, sofreu falência de múltiplos órgãos e não resistiu. Até pouco antes de adoecer, víamos sempre, em rodas de choro aqui em Brasília, cidade em que viveu por décadas, o velho homem, de baixa estatura, olhar vivo e capaz de fazer o diabo com um pandeiro na mão. A comunidade candanga do Choro tem muito a lhe agradecer, pois foi ele um dos fundadores do Clube do Choro. Em um dos momentos em que o Clube passou por dificuldades, Pernambuco chegou a vender uma coleção de passarinhos para angariar fundos para equipar a casa de shows. Esse disco da postagem de hoje é nossa homenagem a esse grande homem.


Inácio Pinheiro Sobrinho, o Pernambuco do Pandeiro, nasceu, como seu apelido indica, em Gravatá, Pernambuco, em 1924. Ele foi criado na Paraíba, na cidade de Lagoa da Rola de São Sebastião. Aos 12 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro com a família. Ele trabalhava como engraxate e tocava cavaquinho. Logo começou a se interessar pelo pandeiro. Além de tocar, ele impressionava a audiência fazendo malabarismos com o instrumento, sem perder o pulso da música. Na adolescência, morava no morro de São Carlos e freqüentava o ambiente boêmio da lapa. Aos 16 anos, participou de um programa de calouros da Rádio Mayrink Veiga, e acabou ganhando. A partir daí, passou a tocar em regionais de choro e a acompanhar cantores. Foi nessa época que ganhou o apelido de Pernambuco. Nos anos 40, Pernambuco acompanhou todo mundo: Araci de Almeida, Ângela Maria, Francisco Alves, Ari Barroso, Adoniran Barbosa. Ele fez parte dos regionais de Henrique Xavier Pinheiro, César Faria e Dona Paula (pais de Paulinho da Viola), Jacob do Bandolim, Claudionor Cruz, Benedito Lacerda. Ele tocou com Pixinguinha, Carlos Poyares, Waldir Azevedo, e muitos outros grandes músicos. Além do pandeiro, ele tocava caixeta, ganzá e zabumba. Embora tenha ficado conhecido como chorão, Pernambuco, assim como muitos outros músicos, atuava não só no choro e no samba, mas também no forró, principalmente porque os conjuntos regionais eram extremamente versáteis, além de serem formados por excelentes músicos, que davam conta de transitar entre diferentes gêneros.

Na década de 1950, Pernambuco criou seu próprio regional, do qual faziam parte Jorge e Nilton, nos violões de 7 e de 6, respectivamente, Ubiratan de Oliveira, no cavaquinho, e um jovem sanfoneiro, até então pouco conhecido, de nome Hermeto Paschoal. Com esse regional, gravou vários discos e excursionou pela Europa. Esse disco que nosso blog posta hoje para vocês é o último disco gravado pelo Regional de Pernambuco do Pandeiro, no ano de 1958. Ele acrescentou ao regional a tuba e o bombardinho, para dar ao regional a sonoridade de uma bandinha. Ele chamou o Mestre da Banda do Corpo de Bombeiros, chamado Agobá, para tocar o bombardinho, e José Américo, também dos bombeiros, para tocar a tuba. Além deles, o disco tem a participação do clarinetista Abel Ferreira, junto com o regional, formado por Pernambuco, Hermeto, Jorge, Ubiratan e Darli. O disco tem ritmos variados: já começa com um dobrado na primeira faixa do disco (No arraial de Santo Antônio, de Frederico Freitas e Júlio Dantas), com destaque para os metais, que deixam o regional com cara de bandinha. Tem uma polca típica (Polkinha Mineira, Faixa 3 do Lado A), de Abel Ferreira, que executa a música na clarineta. Esse disco, como o nome diz, embora tenha como base a instrumentação de um regional de choro, é um disco de forró.  Ele traz três músicas de Luiz Gonzaga (A Dança da ModaAssim Preto e Baião da Garoa), e mostra o lado compositor de forró de Pernambuco do Pandeiro, nas músicas Quando Vovô Era Menino (Pernambuco e Washington Fernandes) e Delirando (Pernambuco, Luiz Gaúcho e Rossini Pacheco).  Para terminar, não posso deixar de comentar o arranjo de banda de circo para São Paulo Quatrocentão, de Garoto e Chiquinho. Simplesmente genial e brasileiríssima a mistura de banda de coreto com regional de choro e trio de forró.
Sem dúvida, nesse momento, está acontecendo uma grande Roda de Choro no céu, com nosso querido Pernambuco fazendo mirabolâncias e malabarismos no pandeiro, ao lado de São Pixinguinha e de outros grandes músicos, seus companheiros de música e vida. Adeus, velho mestre!


Lado A

01-Arraial de Santo Antonio (Frederico de Freitas – Julio Dantas)
02-Quando vovô era menino (P. Sobrinho – Washington Fernandes)
03-Polkimha mineira (Abel Ferreira)
04-Delirando (P. Sobrinho – Luiz Gaucho Rossini)
05-São João do carneirinho (Guio de Morais – Luiz Gonzaga)
06-Noites de Junho (João de Barros – Alberto Ribeiro)

Lado B

01-São Paulo quatrocentão (Garto – Chiquinho)
02-Rio Antigo (Altamiro Carrilho)
03-No tempo do imperador (Guio de Morais)
04-A dança da moda (Luiz Gonzaga – Zé Dantas)
05-Assum preto (Humberto Teixeira – Luiz Gonzaga)
06-Baião na garôa (Luiz Gonzaga – Hervê Cordovil)



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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Jackson do Pandeiro - Isso é que é forró (27/01/2011)

Jackson do Pandeiro nasceu como José Gomes Filho, em 31 de Agosto de 1919, em um casebre na zona rural no município de Alagoa Grande, na Paraíba. Seu pai era o oleiro José Gomes, e sua mãe, a cantora de côco Flora Maria da Conceição. O menino Zé cresceu solto no mato, nunca freqüentou escola alguma, e até 1930 não se poderia imaginar que seu futuro lhe reservava o título de “rei”.  Alagoa Grande tinha a peculiaridade de ter um universo musical bem rico; tinha cantadores de côco, entre os quais a mãe de Jackson, cujo nome artístico era Flora Mourão, figurava entre os melhores; ficava próximo de um remanescente de Quilombo, o Caiana dos Crioulos, que trazia uma preciosa herança musical africana; lá tinha também uma escola de música, em que poucos privilegiados tiveram acesso a algum ensino formal de música. Não foi o caso de Jackson. Sua mestra, e seu ícone, por toda a vida, foi sua mãe, a guerreira do côco Flora Mourão. Ela era, como ele, mulata, magra, pobre; andava com um vestido branco surrado, que Jackson carregou na mala até o último dia de sua vida. Quando José Gomes faleceu, Flora casou-se com outro José, com quem teve mais dois filhos. O segundo José era, porém, valentão e cachaceiro. Uma vez, chegando em casa bêbado, tentou agredir Jackson. Foi a única e derradeira vez, porque Flora botou o cabra para correr. Daí ela ficou só com os filhos, e tinha que dar conta de tudo. O dinheiro ela fazia cantando os cocos em qualquer lugar que fosse chamada. Ela cantava com o tal vestido branco, um único sapato que lhe pertencia e um lenço perfumado, que enrolava no pescoço. Quando a apresentação acabava, o lenço recebia os escambos: leite, pão, moedas, notas. Ela o chamava de lenço da sorte. Mais tarde, Jackson o utilizava quando precisava da força espiritual do lenço e de sua mãe. Flora cuidava dos filhos e da casa também, e conseguia fazer umas rodas de côco domésticas. Nelas, Jackson, que ainda era o pequeno Zé, com apenas 7 ou 8 anos, ficava vendo e ouvindo tudo, e fazendo a marcação do ritmo com o pé. Os instrumentos, a zabumba e o ganzá, ficavam pendurados na parede da sala, e despertavam os sonhos de Jackson, de tocá-los com a intimidade de sua mãe e do zabumbeiro que a acompanhava, chamado João Feitosa. Um dia, ele faltou. O menino José ouvia a lamentação da mãe, e percebeu sua angústia pela falta do homem. José, com sete anos, subiu no tamborete, alcançou a zabumba e gritou: “Mãe, agora não precisa mais de Seu João Feitosa nem de ninguém. Eu já sei tocar o bumbo”. Três anos depois, Jackson já ocupava o lugar do zabumbeiro nas tocatas de sua mãe.
A vida inteira de Jackson foi, do mesmo modo como sua infância e iniciação musical, rica, interessante e repleta de passagens emocionantes. Ele gravou dezenas de discos. O que o Acervo Origens disponibiliza hoje foi o último de sua carreira, lançado em 1981, um ano antes de sua morte. O último disco de nosso rei tem a maturidade dos 29 anos de carreira artística, juntamente com o vigor de alguém que nunca abandonou a juventude. Destaco a faixa 5 do lado B, “Bola de Pé em Pé”, uma homenagem de Jackson ao Flamengo, uma de suas maiores paixões. Muito boa também é “Mundo Cão” (faixa 3 do Lado B).


Lado 1

1-      Cabeça feita (Jackson do Pandeiro-Sebastião Batista da Silva)
2-     Tem pouca diferença (Durval Vieira)
3-     Herança de meu pai (Benício Guimarães)
4-    Mãe solteira (Severino Ramos-Antonio Rodrigues)
5-     Samambaia trepadeira (Gervásio Horta)
6-    Eu vou pra lá (Benício Guimarães)

  Lado 2

1-      Competente demais (Valdemar Lima-Jackson do Pandeiro)
2-     Quem tem um não tem nem um (Durval Vieira-Jorge Paulo)
3-     Mundo cão (Jackson do Pandeiro-Rogéria Ribeirão)
4-    São Tomé (Assunção Corrêa-Jackson do Pandeiro)
5-     Bola de pé em pé (Jackson do Pandeiro-Sebastião Batista da Silva)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

70 anos de Pixinguinha (17/12/2010)

Pixinguinha é um nome tão importante para a música brasileira que tudo o que for possível escrever, falar, tocar ou cantar, sobre ele, será ainda pouco. Quinhentos anos de homenagens a ele não serão suficientes para alcançar a contribuição que ele deu para nossa música. Negro, pobre, subdesenvolvido, brasileiro, malandro, macumbeiro, Pixinguinha não possuía os atributos exteriores que permitiriam que um músico fosse reconhecido como um gênio da música mundial. Se tivesse nascido na França, na Áustria ou na Alemanha, branco e de olhos claros, com estudo formal, ele estaria sendo estudado em conservatórios no mundo todo, como um dos grandes gênios da música. Chegará o dia em que, quando falarmos da grandiosidade de Pixinguinha, não caberá o adjetivo brasileira depois da palavra música. Para isso, contudo, é preciso que a humanidade seja suficientemente civilizada para entender que música é música, sem mais, não importando em qual lugar do mundo tenha sido feita. Quando esse dia chegar, será desnecessário escrever ou falar sobre a biografia de Pixinguinha, porque ela será tão conhecida como a de Michael Jackson. Como esse dia não chegou, aí vai um pouco da história desse homem espetacular.
Alfredo da Rocha Vianna nasceu em 23 de abril (dia em que hoje se comemora o Dia do Choro) de 1898, no bairro da Piedade. Na realidade, o ano não se sabe se foi 1897 ou 1898, porque nem ele mesmo sabia dizer. O apelido veio ainda bebê, porque, segundo ele, contraiu bexiga na época da epidemia: “Começaram a me chamar de Bexiguinha, depois de Pexinguinha. Houve essa confusão toda e eu não sei por que fiquei como Pixinguinha”. Sua família, embora negra, pertencia à baixa classe média, e Pixinguinha estudou em colégios particulares. Todos da família eram ligados à música; o pai tocava flauta, e os irmãos, violão de sete cordas, banjo e cavaquinho. Pixinguinha se aventurava por vários instrumentos, e aprendia aqui e ali, com uns e outros. Com 12 anos, compôs o primeiro choro, Lata de Leite. Depois, conheceu o maestro Irineu de Almeida, com quem começou a ter aulas de música e de flauta. O pai dele, então, empolgado com o talento do menino, importou uma flauta de prata caríssima para ele.  Com 14 anos, Pixinguinha já tocava profissionalmente, ainda de calças curtas. Em 1917, gravou um disco na Odeon, com duas músicas que se tornaram clássicos da música brasileira até hoje: o choro Sofres porque Queres e a valsa Rosa. Em 1918, formou o grupo Os Oito Batutas, com Donga (violão), China, irmão de Pixinguinha (violão e canto), Nélson Alves (cavaquinho), Raul Palmieri (violão), Jacob Palmieri (bandola e reco-reco) e José Alves de Lima, Zezé (bandolim e ganzá). Em 1921, o milionário Arnaldo Guinle convidou os Oito Batutas para uma temporada na França. Embarcaram em 1922, e fizeram a mais importante excursão de brasileiros no exterior. Permaneceram lá por quase um ano, e foi nessa viagem que Arnaldo Guinle presenteou Pixinguinha com um saxofone, que iria surpreender o mundo da música na década de 1940. Depois, permaneceram cinco meses na Argentina, realizando inúmeras apresentações. Nesse período, Pixinguinha fez arranjos geniais para o grupo, e isso resultou em um contrato, pela RCA Victor, como arranjador. Ele fez centenas de arranjos para gravadoras nas décadas de 1930 e 1940. Como tudo o que Pixinguinha fazia era genial, seus arranjos eram tão incrivelmente originais, que ele acabou virando o criador do arranjo musical brasileiro. Em 1942, gravou os dois últimos choros na flauta: Chorei e Cinco Companheiros. Foi então que começou um período meio obscuro na vida de Pixinguinha, cheio de diz-que-me-disses e de controvérsias entre biógrafos e amigos. O fato foi que ele abandonou a flauta. Dizem que foi por causa da bebida, que faziam suas mãos tremer, e ele teve que botar uma ponte nos dentes, e perdeu a embocadura, mas nada disso explica tintim por tintim o fato. Foi um período difícil, porque ele estava endividado com uma casa que comprara para morar com a esposa e o filho. Então, em 1946, ele se uniu ao Benedito Lacerda. Este lhe propôs uma parceria: ele conseguiria as gravações das músicas de Pixinguinha, mas, em contrapartida, a autoria seria compartilhada entre os dois. Outra contrapartida foi que Benedito acabou quitando a casa do Pixinguinha. Por isso, a maioria dos choros de Pixinguinha são dele e do Benedito Lacerda, embora todo mundo saiba que quem fez mesmo o negócio foi o Pixinguinha. Então, eles gravaram: Benedito na flauta, e Pixinguinha no sax; a flauta com a melodia principal, e o sax com o contraponto. Mas o Benedito era um flautista extraordinário. Não, como alguns falam, poderia ser considerado coadjuvante, porque a flauta que ele tocou nas dezenas de músicas que a dupla gravou é extraordinária. O próprio Altamiro Carrilho, o maior flautista de choro de todos os tempos, diz que sua influência foi sempre o Benedito. Acontece que o Pixinguinha não conseguia não ser um gênio. Os contrapontos que ele fez no saxofone são uma das coisas mais lindas e criativas que a música brasileira já produziu. Quando o velho Pixinga completou 70 anos, foram muitas as homenagens. Esse disco é uma delas, prestada pela gravadora RCA-CAMDEN, com grandes sucessos do mestre, além de alguns choros menos conhecidos. Vários são interpretados por ele no sax e Benedito Lacerda na flauta, e outros por Jacob do Bandolim. A primeira faixa do Lado B tem Pixinguinha cantando. Não deixem de ler o texto da contracapa, escrito por Jacob do Bandolim. Não é exagero dizer que Pixinguinha é santo. Viva São Pixinguinha, e, com ele, viva toda a música brasileira.


Lado 1

1-     Um a zero – Choro (Pixinguinha)
2-     Marilene – Choro (Pixinguinha-Benedito Lacerda)
3-     Proezas de Solon -  Choro (Pixinguinha-Benedito Lacerda)
4-    Teu aniversário – Choro (Pixinguinha)
5-     Segura êle – Choro (Pixinguinha-Benedito Lacerda)
6-     Marreco quer água – Polca (Pixinguinha)

Lado 2

1-    Yaô – Lundu Africano (Pixinguinha-Gastão Viana)
2-   Cochichando – Choro (Pixinguinha)
3-   Sofres porque queres - Chôro (Pixinguinha-Benedito Lacerda)
4-   Pagão – Choro (Pixinguinha-Benedito Lacerda)
5-   Vagando – Choro (Pixinguinha-Benedito Lacerda)
6-   Paciente – Choro (Pixinguinha)

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sábado, 20 de novembro de 2010

Programa Acervo Origens - hoje às 19h


Na semana da consciência negra, o Programa Acervo Origens traz pra você a força e a beleza da música afrobrasileira. Tem Pixinguinha, Clara Nunes, Camafeu de Oxóssi, Gilberto Gil, Caixeiras da Casa Fanti-Ashanti e muito mais. 

Uma das músicas que estarão no Programa é essa aqui interpretada pelo Emílio Santiago e de autoria de Dominguinhos e Anastácia. Uma pérola !


Tem também muita informação sobre diversas manifestações da cultura negra no Brasil, como capoeira, candomblé, congada e várias outras. 

Não percam! Na batida dos tambores, no balanço do ganzá.

Programa Acervo Origens – Especial Música Negra
Sábado, dia 20 de novembro, às 19:00 horas  na Rádio Nacional Brasília Fm 96,1mhz

Apresentação: Cacai Nunes

Ouça ao vivo on line clicando aqui

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Chico Antônio - No Balanço do Ganzá - (27.10.2010)

Procurando coisas sobre a vida e obra de Chico Antônio, achei um texto no blog chicoantônio.blogspot.com, escrito por Inácio França, que transcrevo aqui, porque ele conta, de forma muito afetuosa e verdadeira, a vida desse homem incrível. O texto é meio longo, mas vale a pena ler.

Chico Antônio é citado ou aparece como protagonista em cinco livros de Mario de Andrade, cantou na Rede Globo, teve sua vida registrada num documentário financiado pela Funarte, foi lembrado por Antônio Nóbrega no disco Na Pancada do Ganzá e pelo grupo Mestre Ambrósio. (...) Mas, afinal, quem foi esse Chico Antônio, merecedor de tamanhas homenagens? Embolador de coco, ou “coquista”, Francisco Antônio Moreira reservou sua vaga no imaginário dos intelectuais brasileiros no final da década de 1920, quando foi “descoberto” por Mario de Andrade durante a viagem etnográfica que o escritor paulista fez ao Nordeste, entre os anos de 1927 e 1929. O autor de Macunaíma ficou tão encantado com os versos improvisados de Chico que decidiu imortalizá-lo na sua obra. O cantador potiguar mereceu destaque nos livros Os Cocos, Danças Dramáticas do Brasil, Vida de Cantador, Turista Aprendiz e Melodias do Boi e Outras Peças. A autoridade intelectual de Andrade transformou Chico Antônio num dos símbolos do Modernismo, cultuado pela intelectualidade dos anos 30 e 40 como um exemplo do talento do artista popular. Cultuado, porém desconhecido. Convidado pelo escritor para acompanhá-lo na viagem de volta a São Paulo, Chico recusou, pois tinha mulher e filhos. Preferiu cuidar da família a cantar nos salões paulistanos. Assim, as citações nos livros conferiram ao embolador uma aura de personagem lendário. Os leitores e estudiosos da obra de Mario, que nunca escutaram a voz e o ritmo do cantador de coco, contentavam-se com os poucos versos coletados e reproduzidos pelo escritor. Mas, enquanto os livros de Andrade acumulavam poeira nas estantes ou eram analisados e reinterpretados por estudantes de literatura nas universidades, o homem Chico Antônio continuava cantando, “tirando cocos” nos engenhos e comunidades rurais de Pedro Velho, Canguaretama, Goianinha, Nísia Floresta e São José do Mipibu, cidades ao sul de Natal. Nem imaginava que tinha se transformado em personagem cultuado. Não fosse o acaso, ficaria no imaginário e não na história. Em 1979, sem estrutura para trabalhar como diretor de Promoções Culturais da Fundação José Augusto, do governo potiguar, o folclorista Deífilo Gurgel decidiu usar o carro e o motorista da repartição para fazer um inventário das danças populares do seu Estado. No último dia de sua viagem pelas cidades e vilas do litoral, chegou a Pedro Velho. Fotografava a igreja matriz, quando o tabelião do cartório local se aproximou, disposto a ciceroneá-lo. “Era final de tarde, já dava a pesquisa por concluída, quando o tabelião me levou para fotografar umas ruínas. Depois, fomos até sua casa comer canjica e tomar café, foi quando lhe expliquei que estava catalogando grupos de dança e artistas populares. Ele estava pensando que eu era fotógrafo”. Conversador, disposto a ajudar o funcionário público da capital, o tabelião garantiu que a cidade tinha um embolador de coco dos bons. Era noite e Deífilo não estava muito disposto a retomar a rotina de entrevistas e gravações. Foi só escutar o nome “Chico Antônio” que seu ânimo melhorou. Os dois foram até a casa do cantador, na mesma noite, 10 quilômetros por uma estrada de barro. Sob a luz do candeeiro, Deífilo perguntou ao velho Chico Antônio, então com 75 anos: “O senhor lembra de um pessoal de São Paulo que veio ver o senhor cantar lá no Bom Jardim?”. Lúcido e com a memória intacta, o embolador nem esperou o final da pergunta: “Lembro do doutor Mario. Mario de Andrade”. O personagem saía das páginas amareladas. Era um homem de carne, osso e poesia. Deífilo voltou para Natal, escreveu artigos publicados nos jornais locais. Os correspondentes dos jornais do eixo Rio-São Paulo publicaram matérias no Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Globo. Aloísio Magalhães, então secretário de Cultura do Ministério da Educação, foi ao Rio Grande do Norte e fez questão de conhecê-lo. A Funarte mandou uma equipe registrar seu canto e gravou o LP “No Balanço do Ganzá”. Em 1983, o cineasta Eduardo Escorel captou as imagens e as entrevistas para o documentário Chico Antônio, um Herói com Caráter, também financiado pela Funarte. A equipe do Som Brasil, programa apresentado por Rolandro Boldrin que marcou época nas manhãs de domingo da Rede Globo, enviou duas passagens de avião para que ele fosse cantar. Antes da gravação, deu entrevista coletiva para os jornais. Quebrando as normas da emissora, só cantou depois de tomar algumas doses de aguardente, que o próprio Boldrin mandou comprar para “inspirar” o velho cantador. Entre os defensores da cultura popular, no início dos anos 80, menos numerosos do que hoje, Chico Antônio voltou a ser mania. Fenômeno de mídia, logo seu nome desapareceu das manchetes. Depois de tudo isso, a idade pesou. Sem forças para cantar, passou a sobreviver de uma pensão especial concedida pelo governo. Morreu esquecido, em outubro de 1993, exatamente durante as comemorações do centenário de Mario de Andrade. Em Toulouse, na França, o músico e pesquisador Claude Sicre, líder de um movimento que busca no forró e no repente traços e similaridades com a música dos trovadores medievais franceses, convenceu as autoridades locais a erguerem uma estátua na Place dês Troubadours em sua homenagem. No pedestal, uma placa informa aos desavisados que aquela imagem representa Chico Antônio, o maior cantador do século 20. Levado por seu amigo Sicre, Lenine viu a estátua e ficou perplexo. Lenine assegura que Sicre escutou o CD da Funarte (aquele que foi gravado originalmente no formato LP) e se apaixonou pela arte do potiguar. O mesmo aconteceu com Siba, do Mestre Ambrósio, e Antônio Nóbrega. Mas eles são exceções à regra. Afora esses registros, a Fundação Hélio Galvão, de Natal, lançou, em 2009, o CD Carretilha de Cocos, com coquistas da atualidade cantando algumas de suas músicas. A esperança de que esse catálogo aumente está nas fitas cassetes gravadas por Deífilo Gurgel ao longo de quase 14 anos de convivência com Chico. (...). Uma história contada por Deífilo Gurgel revela que, gozador e brincalhão, Chico Antônio tinha noção do valor de sua arte, mesmo antes de ser apresentado e passar pelo crivo de Mario de Andrade: depois que foi convidado pelo crítico Antônio Bento para morar no Bom Jardim, um capataz do engenho foi até a casa de taipa onde ele tinha sido instalado e lhe entregou uma foice e um quartinho d’água, ordenando em seguida que fosse cortar cana. Chico não se moveu da rede onde estava deitado e dispensou o capataz: “Cumpade Antônio Bento me trouxe aqui foi pra cantar, não foi pra trabalhar, não”.

Há muitos outros textos na Internet, artigos sobre Chico Antônio e Mário de Andrade. Um deles pode ser acessado aqui.  Sobre o disco, ele é o único registro da voz de Chico Antônio existente (fora as tais fitas cassete gravadas por Deífilo Gurgel). Por isso, é um patrimônio de importância fundamental para nossa música e nossa identidade.


CHICO ANTÔNIO NO BALANÇO DO GANZA

Lado A

1-  Boi Tungão (refrão) – Chico Antônio e Paulírio
Ê tingue-lê - – Chico Antônio
2- Serrador, bota o pau na serra - – Chico Antônio e Paulírio
3-  Onde vais Helena - Chico Antônio e Paulírio
4- Usina (Tango-no-mango) - Chico Antônio (refrão: Paulírio)
5- Ê Luquinha da lagoa - Chico Antônio e Paulírio

Lado B

1- Vou no mar - Chico Antônio e Paulírio
2- Curió da beira-mar - Chico Antônio e Paulírio
3- Pinto pelado - Chico Antônio e Paulírio
4-  Boi Tungão - Chico Antônio e Paulírio




quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Cururu e outros cantos das festas religiosas - MT (20.20.2010)

 O Cururu e o Siriri são manifestações culturais ligadas às festividades dos dias santos, que acontecem no Mato Grosso. As rodas de Cururu e Siriri mais importantes ocorrem no ciclo joanino – São Pedro, Santo Antônio e São João -, mas, em outras ocasiões, tais como casamentos, aniversários, outros dias santos, é possível ver o Caruru e o Siriri. A Roda de Caruru é composta por um grupo de homens que dançam em círculos e tocam violas-de-cocho e ganzás, cantando louvações ao santo homenageado, cuja imagem está em um altar. Devotos de um determinado santo organizam-se em irmandades, que promovem anualmente a festa, e convidam um grupo de cururueiros para cantar e dançar.
O Siriri é dançado ao som da viola-de-cocho, do ganzá e do mocho (uma espécie de banco, cujo assento de couro é percutido com baquetas de madeira). O Siriri é dançado principalmente por mulheres, e acontece, em geral, nas mesmas festividades do Cururu. Além de diferenças na dança, na instrumentação e na composição das rodas, o Siriri difere do Cururu nitidamente desde o ponto de vista do ritmo. O Cururu é tocado em compasso binário simples (2/4), e o Siriri em compasso binário composto (6/8). A viola-de-cocho está presente em ambos. O nome desse instrumento tem relação com o cocho, espécie de gamela utilizada para alimentar animais; a técnica usada para escavar o cocho dos animais é a mesma para a viola. A viola-de-cocho pertence à família dos alaúdes curtos, podendo ser considerada um tipo de alaúde brasileiro. Ela é confeccionada seguindo um ciclo lunar específico, para não ser atacada por cupins, e as madeiras mais usadas são sara de leite, ximbuva, cedro, jacote, urucurana, cajueiro, mandiocão e mangueira. Ela pode ter dois ou três trastes, sendo que, no primeiro caso, os intervalos entre eles são de tom e semitom; no segundo caso, os intervalos entre os trastes são de semitons. A viola-de-cocho é produzida unicamente por processos artesanais, em geral por pessoas ligadas ao Cururu e Siriri, e da região de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Por serem manifestações culturais extremamente localizadas, as tradições do Cururu e do Siriri necessitam de apoio para sua manutenção. Nesse sentido, com muita justiça, o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o complexo cultural do Cururu e Siriri como patrimônio imaterial. Esse disco, produzido pelo Instituto Nacional do Folclore, em 1988, tem gravações de Cururu e Siriri, recolhidas em campo por Elizabeth Travassos, renomada pesquisadora das tradições musicais brasileiras, juntamente com Roberto Correa, violeiro e pesquisador da viola caipira. Nele há cantigas entoadas nas rodas de Cururu e Siriri, cantadas e tocadas pelos cururueiros. Destaco a faixa 10, um rasqueado instrumental, e tem uma bela melodia tocada pela viola de coxo.



 CURURU e outros cantos das festas religiosas – MT

Lado A

01 – Canto da entrada da bandeira de folião
02 – Toadas de cururu
03 – Toada de cururu e baixão
04 – Toada de cururu

Lado B

01- Ladainha (trecho)
02 – Toada de cururu
03 – Toada de cururu e baixão
04 – Toadas de cururu
05 – Siriri: Toque da viola de cocho e “Eu vou na casa dela”
06 – Siriri: “Nhadaia” e “Garça Branca”
07 - Rasqueado